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Monthly Archives: Maio 2015

Lápis de cor em papel de aguarela por Alda Maria Maltez1545622_938070719566027_2485065941698575974_n

Antes…

Eu bebia sôfrega a luz dos teus olhos,

Eles brilhavam pra mim como estrelas na noite

…e só eu é que via…

Antes…

As tuas palavras, ditas banais, eram poemas,

Cheios de flores, e cor e musica

…e só eu é que ouvia…

Antes…

Eu embarcava no teu sorriso,

E navegava no mar das minhas fantasias

…e só eu é que sabia…

Antes…

Eu falava com os anjos

E eles mostravam-me caminhos de luz

Até ao teu palácio

…e só eu é que sabia…

Antes…

Antes as minhas mãos procuravam-te no meu corpo

No silêncio das noites de insonia,

E as minhas lágrimas escreviam o teu nome no meu rosto,

E eu bebia a dor salgada de te querer sozinha.

…mas isso era antes…

Porque antes eu amei um sonho, uma fantasia,

…e já toda a gente sabia…

Mas agora…

Agora as fontes dos meus olhos secaram,

E transformaram-se em tinta e em palavras,

E eu pintei telas com as cores da minha alma,

E enchi folhas com palavras que agora já não me falam,

E tu estás em cada sílaba, em cada pincelada,

E eu já não te conheço.

E os teus olhos já não têm o brilho que eu imaginava

…porque só eu é que via…

Porque agora…

Agora eu enchi a minha vida com os sorrisos perdidos,

E fiz da minha dor o meu navio

E naveguei os temporais que me assolaram

E saí ilesa.

Apenas estou cansada…exausta

Porque eu passei pela tempestade,

Não foi ela que passou por mim…

E eu saí mais forte.

E hasteei as velas da minha coragem,

E rumei a novas paragens.

E ficaram para traz as palavras inocentes,

Com que compunha os poemas,

Que a menina dentro de mim inventava para te oferecer.

Porque o que eu sentia tinha atravessado o tempo…

Outros tempos…

Porque em outras vidas este amor foi vivido a dois,

E eu não estava sozinha.

Mas tu perdeste as memórias,

E viajaste no tempo sem lembranças.

…mas isso era antes…

Porque antes…

Antes eu passeava descalça em roseirais brancos

Abrindo caminhos de sangue

…e só eu é que sentia…

Alda Maria Maltez 2005

Fotografia de Alda Maria MaltezFotos Nikon 903

Paradoxo…

No insondável mistério que é amar-te, pecado confesso e contrição, perpétuo arrependimento de voltar sempre ao ponto de partida…

Enigma…

Nas palavras indizíveis, contidas em olhares soslaios que deixam escapar verdades inconvenientes, paixão e febre, doença e cura em simultâneo…

Quebra cabeça…

No meu corpo esculpido, uma e outra vez, pelas tuas mãos, artesão em busca da obra prima, Vénus quebrada, seios e ventre e mármore, escopo a cinzelar desejos e dilemas…

Labirinto…

Na tua língua e mãos e carne, a conquistar terra de ninguém, campo de batalha onde me perco e te encontras, e onde hasteias a tua bandeira, de derrota em derrota, sem que sejas vencido…

Fuga…

Na inconsciência que é querer-te, medos e segredos, perigosamente ciente dos nadas que coleciono e desconstroem a nossa história que não há…

Vertigem…

Na insanidade das minhas mãos a procurarem-te no meu corpo, no silêncio das noites de insonia, lua cheia a invocar feitiços madrugada dentro…

Medo…

No indizível ridículo que é contar nos relógios todas as horas, quando carregas nas tuas mãos a minha solidão, asas e pele, onde despejas as etéreas promessas de não ser mais…

Tormenta…

Barco à deriva, perdido, a encontrar refugio na ilha da tua pele onde naufrago, entrega e cansaço, maresia e sal em tempestades de sentidos, dor e ciúme a morder a tua boca de saudade…

Água…

Nas fontes dos meus olhos, com que escrevo poemas, que não lês, nas minhas faces em sulcos, versos que gritam e calam e guardam…

…e esperam…

…por habitares o meu corpo sem abrigo…

Alda Maria Maltez