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Dia 22 fui a júri para o 12º ano, e acabei por falar sobre o meu pai, um tirano à moda antiga… e depois lembrei-me de algo que já há muito tempo não recordava, e dei comigo a reviver momentos e a relembrar pormenores que me tinham escapado ou que eu evitava esmiuçar por algum motivo. O ritual dos jogos de cartas ao serão depois do jantar… O meu pai sentado no sofá em frente à mesinha de sala de estar a beber um copinho de brandy, e a minha mãe “obrigada” a jogar com ele o jogo que ele adorava, e em que era, pode dizer-se, viciado. A minha mãe detestava jogar às cartas. Todos os dias a mesma cena se repetia…. A minha mãe lá ia inventando desculpas para não jogar, a loiça que estava por lavar ou a roupa para passar a ferro…não me lembro, mas sei que ela fazia um enorme “frete” e era incapaz de lhe dizer simplesmente que não. Eu, muito pequena ainda, com cinco ou seis anos a assistir aos jogos, desejando ser eu ali, no lugar da minha mãe. Seguia todas as jogadas com a máxima atenção, jogo atrás de jogo, que o meu pai invariavelmente ganhava…era muito raro o meu pai perder um jogo e quando isso acontecia, como ele tinha muito mau perder, não terminava a noite sem mais um jogo para a desforra, como se não pudesse ir para a cama depois de uma derrota. Caramba! Por acaso nisso até saio a ele por muito que me custe admitir, não gosto de perder nem a feijões e adoro jogos, pelo desafio, e principalmente este que o meu pai também adorava. Um jogo de paciência, o Crapô, que pode levar uma ou duas horas a jogar… A minha irmã, com mais três anos do que eu foi a “próxima vitima”. O meu pai ensinou-a a jogar porque a minha mãe não dava luta, e eu continuei ali a devorar as jogadas e a pensar que se fosse eu… lembro-me da minha irmã muito “panhonha” também não gostar nada de jogar, e eu ali, tão pequenita, com o coração aos saltos a querer que o meu pai percebesse como eu já era crescida…até que um dia, por não haver mais ninguém que quisesse aturar o seu vício pelo Crapô, o meu pai olhou para mim e disse: Alda Maria, hoje vou ensinar-te a jogar Crapô, que é para tu jogares com o pai! Era tudo o que eu queria ouvir! Como se eu já não soubesse jogar…melhor do que ele imaginava. A imagem que eu tenho é das minhas mãos, muito pequenas, eu devia ter seis ou sete anos, a fazer as primeiras jogadas, muito nervosa … as cartas em cima da mesa tinham que ficar muito certinhas para se conseguir analisar o jogo todo, e eu sentia uma enorme responsabilidade por estar ali e ao mesmo tempo o desafio era monstruoso. Ai!…Se ao menos, eu um dia conseguisse ganhar um jogo ao meu pai… um só que fosse… O meu pai era um osso duro de roer, mas eu não me dava por vencida, e ao fim de alguns serões e muitos jogos, lá ganhei o meu primeiro jogo. Ao contrário do que alguém possa pensar…não…não foi porque ele facilitou. Penso que ser derrotado por uma criança, apesar de ser apenas um jogo, para ele era uma humilhação. Fiquei muito quieta, não sabia se havia de ficar contente ou não. Lembro-me de ter olhado para ele à espera da sua reacção e de ter sentido um certo medo. A realidade, é que por muito que ele tentasse, não conseguia disfarçar o rombo que o seu ego acabara de levar. Já era tarde, mas não fomos para a cama sem o jogo da desforra… Quando finalmente me deitei, é que me lembro de ter sorrido…um sorriso de vitória!

Sempre tive sorte ao jogo…

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