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 Fotografia de Alda Maltez

Tinha uma visão distorcida da realidade… Imaginava que o mundo era perfeito,

 e que as pessoas se podiam amar sem reservas

e falar umas com as outras acerca dos seus sentimentos.

 Coitada… Tss…Tss…vivia convencida de que se deve demonstrar o que se sente.

Por pouco não a internaram por causa disso.

 

-Sabes da última?

-Desde quando é que uma pessoa diz a outra o que sente?

-Deve estar doida…

-Pois, pois! Perdeu o juízo, é o que é!

-Vejam lá bem, agora até quer ser feliz…

-E aquele marido dela, como é que se chamava?

-Era uma jóia de rapaz, via-se mesmo, só de olhar para ele…

-Que pena…-Faziam um casal tão bonito!

-Pareciam tão felizes…Quem havia de dizer…

-Ainda por cima foi ela que saiu de casa!

-Uma mulher não sai de casa assim e deixa o marido e os filhos!

-A menos que… pois é …

-Deve ser isso mesmo, que eu não sou de intrigas, mas sair assim de casa…

-Uma casa tão bonita… um marido tão jeitoso… um carro tão bom…

-Ninguém me convence de que ela não tem outro!

-Ah! Pois deve ter, deve sim senhora!

-Cá eu, sou uma mulher como deve ser, às direitas!

 Nunca na vida deixaria o meu homem, nem a minha casinha, que é o meu lar.

 O meu Manel quando chega à noite depois do trabalho já tem a comidinha posta na mesa

e as pantufinhas preparadas para calçar.

Faço-lhe o jantarinho e ele nem abre a boca para dizer uma palavra que seja,

 vem esfomeado.

Às vezes lá abre a boca e diz:

 Oh! Deolinda, porra! Salgaste a merda do jantar!

Foda-se é sempre a mesma coisa.

Chega um gajo a casa farto de trabalhar e depois é isto!

Mas tirando isso, nunca diz nada, é um paz de alma, o meu Manel,

lá isso é verdade, não desfazendo.

Não faz mal a uma mosca…

a não ser quando o Benfica perde e ele fica com a mosca.

De resto, ali está aquela alminha…

Come em frente à televisão e depois estatela-se no sofá com o comando na mão

e fica ali a roncar até que o acordo para ele se deitar.

 Não tem nada que me aponte. Essa é que é essa!

Nunca teve que me chamar a atenção por estar alguma coisa fora do lugar

ou um botão por pregar numa camisa.

 Não me posso queixar, lá de vez em quando arranja uma mastronça,

mas volta sempre para casa, e eu desculpo-o, porque é destas coisas,

 os homens são diferentes de nós, têm aquelas necessidades…

Não me bate, por isso devo ser feliz, não acha?

 

-Pois tá claro que sim!

Uma mulher que faz o que lhe compete é uma mulher feliz, de certeza!

 -Já o meu, de vez em quando chega a casa com um copito a mais,

 e lá me chega a roupa ao pêlo. Mas é só mesmo de vez em quando…nada de mais…

Nadinha!

Até porque se ele me bate é porque quer dizer que ainda gosta de mim. Não acha vizinha?

-É verdade, e mulher séria, come e cala!

 

-Pois é! Voltando à outra…ele há com cada doida…

 -Pois há!

 

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