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Monthly Archives: Dezembro 2009

 

 

 

 

Ilustração de Alda Maltêz 

Vou deixar aqui um apelo.

É algo que tem vindo a germinar dentro de mim já há algum tempo, e eu sou assim…como direi…de ideias fixas.

Para poder explicar melhor os meus sentimentos acerca deste assunto, começo por dizer, que já fui viciada em telejornais, noticias, informação e afins.

 Agora não!

 Já há muito tempo que deixei de ver telejornais. Não acrescentam absolutamente nada à pessoa que eu sou, e mais não digo!

Aliás, acho que foi por volta do caso “casa pia”, que eu comecei a desligar-me desse mundo de desgraças que só pode fazer mal a quem devora, como eu costumava fazer, toda a informação que tem ao seu dispor. 

Um dia disse: “Basta!”

E foi assim, meus senhores e minhas senhoras, que aqui a Alda Maria deixou de saber o que se passava no mundo… (quando há alguns anos o governo caiu, só percebi porque ouvi nas ruas e nos cafés as pessoas a comentarem. Fiquei ligeiramente incomodada por ser eu a última pessoa a saber…).

 Agora não!

Já nada disso me incomoda.

Eu sou eu, e o resto é paisagem.

A propósito…e o mundo? Quer saber noticias minhas?

Tenho o meu próprio mundo, e, mesmo não sendo perfeito, não dou a ninguém o direito, de todas as noites o vir escavacar mais um bocadinho, com os males do mundo transformados em circo.

Admiram-se depois das “ Columbines” e coisa e tal…

Tenho uma teoria, é uma coisa muito minha …sei lá…

De vez em quando, penso nisso, e se calhar um dia ainda ponho em prática.

 Já agora, assim como quem não quer nada, até vou pôr a circular na internet, uma espécie de petição, um abaixo-assinado, e quem sabe…

Bom, vou dizer-vos do que se trata.

Eu tenho uma visão …(tipo “I have a dream”…)

Até que, se conseguir juntar muitas pessoas a meu favor ainda vou à TVI com esta proposta. (hi! hi! hi!)

Ora aqui vai!

Eu imagino que se possa construir um canal de notícias, que possa haver um noticiário, onde apenas sejam “dadas”, as boas notícias.

Ora vejam lá se conseguem visualizar…

São oito em ponto da noite.

E, com a música da apresentação, tão típica do telejornal, começa;

Boa noite! Eu sou (agora já não pode ser) a Manuela Moura Guedes, e este é o Jornal Nacional…Especial!

Tcharaaaaaam!
Perceberam? Ainda não?

Está claro que não, porque eu ainda não expliquei, dah!

Agora imaginem lá, a ver se conseguem.

Vá lá! Não é difícil!

…….HOJE O PAÍS ACORDOU  MAIS UMA VEZ AO SOM DE MUSICA CLÁSSICA!…

e as noticias que hoje  tenho para vos dar,  são, como de costume,  inspiradoras, algumas enternecedoras até…vou fazer-vos sorrir de ternura, rir à gargalhada, suspirar, e, se por acaso uma lagrimazita teimosa rolar, será certamente de alegria…

 Há aquele caso de uma família que resolveu ajudar… e o outro caso das crianças na escola que formaram um grupo, e resolveram entregar as suas mesadas para serem distribuídas …. e o caso do senhor do mini mercado, que ajudas algumas famílias da região , que estão desempregadas … e segue-se uma entrevista com o Sr. Albertino, que viu a sua vida ser transformada pela boa vontade dos vizinhos… e agora esta noticia, embora exista um determinado numeroso de pessoas, para as quais isto não é novidade nenhuma, o certo é que já está mais do que confirmado:

eles andam por aí… os anjos,

 e existem pessoas que falam com eles, e mantêm conversas inspiradoras…Hoje foi avistado um arco íris, enorme, com cores extremamente vivas, que se avistava por inteiro, de uma ponta à outra,

para quem estava a trabalhar e não pôde assistir, aqui ficam as imagens, e já a seguir, mais, muito mais, aqui, no Jornal Nacional Especial.

Que lindo!

Embora as guerras existam, e sejam todos os dias mutiladas milhares de pessoas, e violadas centenas de mulheres, e esquecidos os direitos das crianças, e as mulheres sejam escravizadas pelos próprios maridos, e ainda que morram de fome e de doenças a toda a hora milhares de pessoas, será que não seria iniciado assim, uma nova corrente, uma outra maneira de olharmos o mundo…

Será que as coisas boas, (porque elas existem), não poderão ser elas as noticias, que nos entram pela casa adentro e que em vez de nos tirarem o apetite na hora do jantar, nos possam servir de inspiração, para fazermos cada vez mais, cada vez melhor.

Senhor primeiro-ministro, que se fale em optimismo, em vez de crise, e não apenas em época de eleições, que se fale de quem faz o bem, em vez de quem espalha o terror. Que os “cinco minutos de fama” não sirvam de troféu aos que roubam, assaltam, e estupram, e que por vezes o fazem para verem os seus delitos serem capas de revista e títulos de jornais… Que a palavra seja dada a quem tem alguma coisa de útil a dizer, que seja dada a quem sabe o que diz, que seja dada a quem sabe do que fala… e quando digo, sabe do que fala, não quero dizer a quem tenha muita conversa, quero dizer a quem seja sábio…

Quero ver telejornais, sim senhora!

Mas fartei-me do sensacionalismo com que se “ tratam” as notícias, como se exploram os sentimentos, as coisas que tocam fundo nas pessoas, como o desaparecimento de um filho, como se faz render o peixe e esticar a corda com a desgraça alheia, apenas para servir os interesses de alguns. Fartei-me de todos os “Casos Maddie”, de todas as guerras, de todas as gripes, que já deram a volta ao mundo e que já nos dizimaram por completo várias vezes.

Pior! Muito Pior do que a combinação das galinhas resfriadas, com a dos porcos constipados e com esta agora, que pelo menos tem um nome mais técnico, são os telejornais, que todos os dias fazem vítimas e ninguém toma uma atitude. Querem-nos matar, isso sim, mas é de preocupação! Encherem-nos de stress ao fim de um dia de trabalho, até que se expluda em frente a um ecrã de televisão.

 Querem-nos embebedar com noticias a que vão “ acrescentando água” para fazer render, às vezes MESES SEGUIDOS.

Como é que isto é possível. Meu Deus?

Não posso compactuar com isto, por isso recuso-me a ver telejornais!

Enquanto não derem noticias de que eu goste, não vejo mais, e pronto!

JÁ  DISSE! E quem quiser pode assinar por baixo:
Alda Maria Maltêz

 

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Alda Maria – A Vida é um Jogo – Acrilico sobre tela 150×150 cm 

 

 

Era uma vez um rei e uma rainha…

 

Viviam num lindo castelo rodeados de abundância,

 tinham coches, cavalos, aias…

O Rei julgava que era soberano e que a sua palavra tinha força de lei,

aliás, o Rei pensava que estava acima da lei e gostava de falar com a rainha engrossando a voz…

O Rei, na realidade era um ser frágil e limitado que não se tinha apercebido do fim da monarquia,

 na verdade o Rei não percebera atempadamente que tinha entrado no século XXI…e isso foi-lhe fatal.

Por esse motivo a Rainha partiu, deixando o Rei com tudo;

o castelo, os coches e o poder que ele imaginava ter…

O Rei ficou sozinho no castelo,

confinado a movimentar-se de um aposento para o outro,

 do quarto para a sala, da sala para o quarto, enfim…uma casa de cada vez, como fazem os reis.

Enquanto a Rainha…

A Rainha ficou com toda a riqueza do mundo nas suas mãos vazias,

e finalmente pôde caminhar por todos os caminhos que escolheu percorrer,

 realizando os seus sonhos antigos e os seus projectos adiados…

 

…e a Rainha viveu feliz para sempre.

 

 Perdoem-me a analogia, mas realmente quem inventou o xadrez sabia o que fazia.

Não é por acaso que a Rainha se movimenta para onde quer, a distância que entender,

 enquanto que o Rei, até para comer, tem que esperar que a presa se aproxime.

 

A Rainha escolhe. O Rei sujeita-se…

 

O Rei é uma peça limitada, sem poder de decisão, que vive na ilusão de um estatuto

que há muito deixou de possuir, dependendo da protecção, ou não,

da Rainha e dos demais à sua volta, que ele desesperadamente tenta controlar,

sem se mexer demasiado, claro!

 

Uma peça, seguramente, largamente ultrapassada, neste tabuleiro de Xadrez, que é a vida…

 

Alda Maria

 

 

 

Fotografia de Alda Maltez

 

Silêncios…

São palavras

Que se calam.

 

Lágrimas…

São gotas de água

Que falam.

 

Palavras…

Pensamentos

Em acção.

 

Poemas…

São asas

Do coração.

  

Alda Maria

 

 

 

 

Alda Maria- Fantasias-Acrilico sobre tela 100x100cm

 

Tenho medo

Fecho os olhos

Escondo um segredo…

 

Planeio

 Planalto

 Salto

Do alto…

 

Vou

 Voo…

 

Abro as asas

Plano…

Sem planos

 

Ilusão…

 

Fecho as asas

Caio a pique

 

Escuridão

 Solidão…

 

Frio

Vazio

Desafio

 

Tormento…

 

Finalmente…

Vento.

 

Abro os olhos

Perco as asas

 

Desilusão…

 

Arvores

Casas

Chão!

 

Alda Maria

 

 

 

 

 http://www.quarto-crescente.com/blog/

Já inaugurei a minha primeira loja.

Curioso, porque não é a primeira vez que inauguro uma primeira loja,

mas esta é só minha, e tem um sabor especial…

Sabe a sangue, suor e lágrimas.

Há muito tempo que o meu sorriso não era tão feliz!

Quando, há três anos, deixei tudo para trás,

 jurei nunca mais ter nada a ver com os trapos,

 e olhem só para mim agora, feliz, a fazer o que sempre gostei de fazer.

A loja está “um mimo”, e as pessoas não param de me cumprimentar

 e dar os parabéns pela iniciativa.

– É a filha da D. Emília, não é ? –

Que saudade já tinha de ver esta loja aberta de novo, a minha vizinha disse-me:

 “Já abriu de novo o Quarto Crescente, e eu até fiquei arrepiada”…

Que engraçado,

como esta loja faz parte da história desta rua…

 e como as pessoas não se esqueceram de nós.

-A sua mãe está boazinha?

Ainda bem que resolveram abrir a loja de novo,

 já fazia falta aqui à rua!

 

Quarenta anos,

é uma vida, aliás são muitas vidas…

 

Acho  piada,

 às senhoras que eu antigamente via, passarem com os filhos pela mão,

 agora a passearem os netos, alguns iguaizinhos aos respectivos pais.

 

É como se tivesse recuado no tempo…

Ontem fique até tarde na noite a tratar dos últimos preparativos;

 tirar os papéis que tapavam as montras e fazê-las,

é realmente uma viagem ao passado,

mas no passado, era eu e a minha irmã

a fazermos uma directa, sempre que era mudança de estação,

e de madrugada íamos comprar pão quente

 à padaria no final da rua,

 que antigamente fornecia Odivelas inteira,

 e que agora já nem sei se existe,

 e a comermos carcaças com manteiga a derreter,

até o dia raiar e a loja estar pronta para abrir.

 

A vida vai mudando,

 umas vezes devagar e outras, depressa demais…

 

Não estou com pressa de nada.

 Pela primeira vez na minha vida,

não tenho pressa nenhuma.

Quero andar devagar…

mas o pior é que não sei ficar quieta.

Esta loja, não é bem uma loja de confecção, como era antigamente.

 É uma loja de enxoval para bebé, e puericultura.

 

Eu acrescentei algumas peças pintadas por mim,

 ( casinha de madeira c/ gaveta p/ quarto de bebé)

 

 como por exemplo orações ao anjo da guarda

para pôr nas cabeceiras das caminhas dos bebés,

 (com uns anjinhos inventados por mim, com asinhas feitas de penas e tudo),

quadros para decorar os quartinhos,

 

( Candeeiro c/ abat-jour pintado)

 

caixinhas de madeira pintadas, candeeiros, fraldários,

 telas com o nome, peso e data de nascimento do bebé, que faço por encomenda…

 Tem sido um sucesso enorme,

 e logo no primeiro dia recebi a encomenda de três orações, escritas em inglês,

 para serem enviadas para Inglaterra.

( moldura c/ base)

 

 Os clientes não se esqueceram das roupinhas que eu desenhava,

embora maior parte deles nem saibam que sempre foram desenhadas por mim,

 e não param de pedir vestuário para bebé,

“Que dantes o Quarto Crescente tinha”,

 e eu só tenho enxoval e roupinhas interiores.

 

Pronto!

 Estava eu nas calmas, e agora já resolvi de novo meter-me em “assados”.

Vou desenhar de novo uma colecção de vestuário para bebés e crianças…

mas só até aos 2 ou 3 anos de idade.

Bom,

mas já que vou ter que me dar a “esse trabalho”, mais vale fazer já a pensar em vender por grosso.

Tenho que arranjar vendedores,

 fazer a feira de moda

(que ouvi dizer que já nem existe)

….e…

eu só ia abrir uma lojinha…ou duas…

Alda… Alda… Alda…

Simples…

Já está tudo dentro da minha cabeça,

 agora é só passar tudo para o lado de fora!

 

 Beijinhos

Alda Maria

 

 

 

 Fotografia de Alda Maltez

Tenho três bens preciosos que são o meu espólio, o que eu salvaria, em caso de incêndio ou de inundação. Três coisas que não vendo por dinheiro nenhum, por terem um valor sentimental inestimável, até porque não foram compradas, nenhuma delas.

Uma, é um anel de ouro branco, com uma ametista, gasto e comido pelos anos em que andou a navegar os sete mares até chegar às minhas mãos numa qualquer praia de Maiorca. Ainda tem areia agarrada por dentro, para que eu nunca me esqueça da sua origem.

Sei. Simplesmente sei que já me pertenceu outrora, e como todas as coisas que nos pertencem, podem dar a volta ao mundo e passarem os séculos que tiverem que passar, que elas voltarão a chegar às nossas mãos da forma mais simples e inesperada, como o meu anel, trazido por uma onda do mar…

Alda Maria

 

 

 

 

Fotografia de Alda Maltez

 

Enfiou a cara na almofada sem conseguir conter as lágrimas que lhe escorriam pelas faces, e aconchegou o urso junto a si…

Há quantos anos tinha deixado de lhe pegar… será que ele sentira a sua falta?

Recuou no tempo e deu consigo a lembrar-se dos tempos em que não adormecia sem a sua companhia doce e silenciosa, daquele que era o seu único brinquedo de criança que lhe haviam oferecido os pais num dos seus primeiros Natais, e que seria durante muitos anos o seu melhor amigo, aquele que lhe enxugara tantas lágrimas com o pelo macio, agora gasto pelo passar dos anos…

Mais tarde, os filhos haveriam de ocupar aquele lugar no seu colo, agora vazio…

Teriam passado mais de quarenta Natais…e agora, de novo com o Natal à espreita, eis que se dera o reencontro com o seu velho amigo.

Constatou que nunca o chamara por um nome, retirando-lhe assim alguma identidade que ele pudesse ter. Sempre fora apenas “o seu ursinho”, o seu mais precioso brinquedo, o seu mais fiel companheiro, que agora, sem um remesso, um amuo ou resquícios de algum ressentimento por ter sido votado durante tanto tempo ao esquecimento, se deixava de novo abraçar, sem reservas, como se tivesse percebido que hoje, a “sua menina”precisava muito dele, e isso era o mais importante naquele momento, irrepetível e único, como apenas podem ser os momentos em que dois grandes amigos se reencontram….

 

Alda Maria

 

 

 

Fotografia de Alda Maltez

Grades, gradeamentos… Prisões ou ornamentos?

 Quantas formas existem de se prender alguém…

 

Fisicamente, psicologicamente…

Pela mente, pelo que sente…

Com sexo, sem nexo…

Com palavras, com silêncios…

Com um abraço, pelo cansaço…

Pela amizade, pela maldade…

Pelo sentimento, pelo casamento…

Pelo prazer, pelo maldizer…

Pela chalaça, pela ameaça…

 

Pelo coração …

Por coacção…

 

Pela dor…

Por amor…

 

Alda Maria

 

 

 

Fotografia de Alda Maltez 

As pessoas deveriam ser como as flores…

 

A rosa, que é considerada a rainha das flores, é linda apenas porque é… 

 Não tem consciência da sua beleza, por isso é pura, inspiradora.

A sua beleza não se altera, quer ela esteja sozinha ou quer alguém se detenha a admirá-la.

 

Assim deveriam ser as pessoas.

 

 Imaginem, como a rosa perderia o seu encanto natural, se,

perante o olhar de um admirador, se tentasse exibir ou envaidecer,

se colocasse adornos ou tentasse mudar o tom das suas pétalas,

presumindo que ficaria ainda mais bonita…

 

E os malmequeres… se olhassem para as rosas

e passassem o resto das suas existências a tentarem parecer-se com elas?

Deixariam de ser malmequeres, que têm a sua própria beleza, mesmo não sendo rosas…

Porque é que um malmequer sequer desejaria ser uma rosa?

Não faria absolutamente sentido nenhum, pois não?

Imaginem como o malmequer perderia a sua beleza única e a sua personalidade,

ao tentar alterar a forma das suas pétalas, a sua fragrância, a sua cor…

Deixaria de ser um malmequer e jamais seria uma rosa,

e a pureza do seu estado natural perder-se-ia para sempre.

 

Menos é mais… e a natureza sabe isso melhor do que ninguém.

 

As pessoas deveriam definitivamente ser com as flores… e às vezes até são mesmo…

porque algumas flores, de tão belas que são só servem para enfeitar.

Outras picam, e escondem o seu veneno atrás de uma beleza suave e de uma aparente calma…

Existem todo o tipo de flores… e todo o género de pessoas…

 mas mesmo assim, continuo a pensar que as pessoas deveriam ser como as flores,

só teriam a ganhar com isso.

 

Alda Maria

 

 

 

 Fotografia de Alda Maltez

Tinha uma visão distorcida da realidade… Imaginava que o mundo era perfeito,

 e que as pessoas se podiam amar sem reservas

e falar umas com as outras acerca dos seus sentimentos.

 Coitada… Tss…Tss…vivia convencida de que se deve demonstrar o que se sente.

Por pouco não a internaram por causa disso.

 

-Sabes da última?

-Desde quando é que uma pessoa diz a outra o que sente?

-Deve estar doida…

-Pois, pois! Perdeu o juízo, é o que é!

-Vejam lá bem, agora até quer ser feliz…

-E aquele marido dela, como é que se chamava?

-Era uma jóia de rapaz, via-se mesmo, só de olhar para ele…

-Que pena…-Faziam um casal tão bonito!

-Pareciam tão felizes…Quem havia de dizer…

-Ainda por cima foi ela que saiu de casa!

-Uma mulher não sai de casa assim e deixa o marido e os filhos!

-A menos que… pois é …

-Deve ser isso mesmo, que eu não sou de intrigas, mas sair assim de casa…

-Uma casa tão bonita… um marido tão jeitoso… um carro tão bom…

-Ninguém me convence de que ela não tem outro!

-Ah! Pois deve ter, deve sim senhora!

-Cá eu, sou uma mulher como deve ser, às direitas!

 Nunca na vida deixaria o meu homem, nem a minha casinha, que é o meu lar.

 O meu Manel quando chega à noite depois do trabalho já tem a comidinha posta na mesa

e as pantufinhas preparadas para calçar.

Faço-lhe o jantarinho e ele nem abre a boca para dizer uma palavra que seja,

 vem esfomeado.

Às vezes lá abre a boca e diz:

 Oh! Deolinda, porra! Salgaste a merda do jantar!

Foda-se é sempre a mesma coisa.

Chega um gajo a casa farto de trabalhar e depois é isto!

Mas tirando isso, nunca diz nada, é um paz de alma, o meu Manel,

lá isso é verdade, não desfazendo.

Não faz mal a uma mosca…

a não ser quando o Benfica perde e ele fica com a mosca.

De resto, ali está aquela alminha…

Come em frente à televisão e depois estatela-se no sofá com o comando na mão

e fica ali a roncar até que o acordo para ele se deitar.

 Não tem nada que me aponte. Essa é que é essa!

Nunca teve que me chamar a atenção por estar alguma coisa fora do lugar

ou um botão por pregar numa camisa.

 Não me posso queixar, lá de vez em quando arranja uma mastronça,

mas volta sempre para casa, e eu desculpo-o, porque é destas coisas,

 os homens são diferentes de nós, têm aquelas necessidades…

Não me bate, por isso devo ser feliz, não acha?

 

-Pois tá claro que sim!

Uma mulher que faz o que lhe compete é uma mulher feliz, de certeza!

 -Já o meu, de vez em quando chega a casa com um copito a mais,

 e lá me chega a roupa ao pêlo. Mas é só mesmo de vez em quando…nada de mais…

Nadinha!

Até porque se ele me bate é porque quer dizer que ainda gosta de mim. Não acha vizinha?

-É verdade, e mulher séria, come e cala!

 

-Pois é! Voltando à outra…ele há com cada doida…

 -Pois há!