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Fotografia de Alda Maltez

Uma vez um anjo tocou-me com uma asa e disse… Alda, olha para ali! E eu olhei… E o que eu vi, jamais poderia imaginar que fosse possivel existir. A minha incredulidade era tanta, que fiquei durante alguns segundos sem articular uma palavra, com os olhos arregalados de espanto. Esfreguei os olhos, e olhei de novo, mas ele não tinha desaparecido. Continuava ali, mesmo à minha frente… Era um duende, pequeno e com um ar esperto. Não falava, comunicava comigo através do pensamento, e disse: Vais fazer uma grande viagem. Largas tudo o que estás a fazer, deixas tudo o que tens, e partes. Não podes olhar para trás, se o fizeres voltas de novo ao ponto de partida e começas o trajecto do inicio. Vais por esta estrada fora até receberes um sinal. Tens que caminhar com os olhos fechados, quando chegares ao fim do caminho vais saber o que fazer. Não te preocupes, que em cada encruzilhada, eu vou estar lá para te dar indicações. Mas lembra-te. Não podes abrir os olhos, nem olhar para trás, senão tens que voltar ao principio e percorrer todo o percurso novamente! Dentro de mim sabia que tinha chegado o momento de partir. Lembro-me de que tinha muito medo de  partir sem saber o destino, ainda por cima com os olhos fechados, mas o meu anjo de novo me falou, e disse: Alda, não tenhas medo, confia! E eu assim fiz. Iniciei um percurso sem ver o caminho, nem saber aonde esse caminho ia dar, sem saber o que iria encontrar do outro lado. Ia ser uma viagem muito comprida, tinha-me dito o duende, e eu iria ter que passar por sete verões muito quentes e sete invernos muito frios. Então é melhor eu levar uns agasalhos, eu disse… Mas o duende olhou para mim, e sorriu, com um sorriso sábio , e eu entendi… Tudo o que eu levar comigo nesta viagem, só me vai atrasar o caminho. Os agasalhos, que me aquecerão no inverno, serão um peso insuportável no calor do verão. Não leves nada, disse, com um olhar matreiro… -Nada? … Não tenho uma casa para morar, não tenho um carro para me deslocar, vou ter que deixar o meu trabalho, a minha profissão, não tenho dinheiro para me alimentar, como é que eu vou sobreviver…? Confia!  Se confiares, terás tudo o que necessitas para sobreviveres a esta viagem, e quando chegares, terás tudo isso e muito mais à tua espera. Só tens que acreditar! E foi isso que eu fiz… Não vou dizer que não estava morta de medo, mas sabia, dentro de mim, que esse era o único caminho. Despedi-me das pessoa que eu mais amo e parti. Os primeiros passos foram muito inseguros, por vezes as pernas fraquejavam, e eu sentia  um terrivel impulso de voltar para trás. As noites eram muito frias, e eu ficava enroscada com medo de todos os sons que vinham da floresta, sentia o respirar dos animais à minha volta, e tentava ficar o mais quieta possivel, para não ser detectada.  Durante muitas noites de solidão chorava até voltar a amanheçer, e de novo continuava a viagem, sem saber o destino. Então, quando eu já estava a desesperar, entrei numa pequena clareira, e senti no rosto o calor do sol,  e foi aí que o Bosque falou comigo numa forma clara e inequivoca. Só quem já passou por um despertar espiritual pode compreender o que significa “ O Bosque falar connosco” E Ele disse: – Abre os olhos! E eu abri. Agora vê! disse a voz Tudo o que vês à tua volta sou Eu. Todas as plantas, todas as flores, cada folha é um milagre, cada insecto. Ouve o som do vento, e ouvirás a Minha voz, escuta o canto dos passaros, que Eu te falarei através deles, e tu saberás sempre, que, onde quer que vás, onde quer que tu estejas, Eu estarei sempre junto a ti, Eu nunca te abandonarei. Estarei sempre contigo durante todo o teu caminho, por muito duro que ele te possa parecer. Tudo o que te é enviado para vivenciares, será sempre porque é uma lição  que tens para aprender.Quanto mais depressa aprenderes as tuas lições, mais fácil será o teu percurso. Tudo o que tens sou Eu que te dou. Nada receies. Olharei sempre por ti. Quando essa conversa terminou, eu senti-me tão leve, como se fosse uma folha de uma árvore, e tão inspirada, como se fosse uma brilhante gota de água,  e tão feliz, como se fosse um lindo passaro azul. E continuei o meu caminho, sem nada, mas feliz! Ainda não tinha precorrido 100 metros quando apareceu à minha frente uma encruzilhada, e no meio, sentado numa pequena pedra, estava o duende, como se sempre soubesse que eu iria passar por ali. Escolhe! disse-me o duende, com um sorriso misterioso… Se fores pelo caminho da esquerda, terás uma vida de conforto e tranquilidade. Não te faltará nada. Terás segurança, casa, carros, dinheiro. Nunca terás fome nem frio, mas também nunca  terás amor e nunca serás feliz. Serás sempre uma prisioneira da tua própria vida e terás sempre azedume, revolta e raiva dentro do coração. Se escolheres o caminho da direita, não terás absolutamente nada. Mas lembra-te, que tudo nasce do nada… Agora escolhe! E desapareçeu, como que por encanto, deixando no ar o eco das suas pequenas gargalhadas…Símel!…Símel!…gritei, pensando que voltaria se eu o chamasse pelo seu nome. Não me deixes aqui sozinha! Não sei que caminho escolher, disseste que me ajudavas quando chegasse a altura. Que grande ajuda me deste, não hajam dúvidas! Senti uma aragem quente no ar, e lá estava de novo o meu anjo… Alda, a resposta está dentro de ti. Apenas tu sabes o caminho que tens que tomar, apenas tu sabes o que é melhor para ti. -Não sei o que fazer… Fecha os olhos e escolhe com o coração.  Vais ver como a resposta é tão clara e tão óbvia. Fechei os olhos, e nisto o meu anjo trocou-me as voltas, andou comigo à roda e depois desapareçeu. Fiquei completamente sozinha de novo, os olhos fechados, perdida e com um caminho para escolher… O da esquerda tenho segurança… O da direita não tenho nada…Nada é tudo… O que é que ele quer dizer com isso?

 

 

De repente uma luz forte quase me cegou, queria abrir os olhos e não conseguia. Está aí alguém? Não via nada, nem adiantava abrir os olhos que não conseguia. Senti uma presença. Quem está aí? Perguntei.Não tenhas medo! disse uma voz. Não tenho!  Sinto apenas uma paz interior muito grande…Quem és?Sou um mensageiro de luz. Trago uma pista para te entregar. O que escolheres fazer com ela pode alterar o teu percurso a partir daqui. Usa bem a informação que te dou, pois apenas os seres priveligiados são abençoados com a sabedoria dos seres de luz. Foste escolhida, mas tens que estar à altura das informações que te vão ser transmitidas. Usa-as com sabedoria e responsabilidade. As pessoas à tua volta não vão compreender, por isso o teu caminho será solitário. E começou a falar… Falou-me de vidas que eu já tinha vivido e de caminhos que em tempos tinha percorrido, e das pessoas que eu conhecia, e porque as tinha conhecido, de quem elas eram e quem elas tinham sido, e como estavam relacionadas com o presente e com os Karmas acumulados do passado,e porque os seus caminhos tinham cruzado com o meu, e as lições que teria que aprender, os ensinamentos. Fiquei incrédula, com toda a informação que recebi, e porque tinha sido escolhida para receber esta informação. Porque me estás a contar tantas coisas? perguntei… Porque tu não tens feito outra coisa senão perguntar! Eu? Sim, tu! Tens as respostas contigo desde sempre, estou aqui apenas para te confirmar! Ah!..Eu sabia, eu sempre soube que havia algo mais, que as minhas dúvidas eram quase certezas, que tinha que haver uma explicação plausível…e há! Obrigada! E agora, o que é que eu posso fazer em relação a este assunto, com tudo o que eu agora sei? perguntei… Nada! É apenas para que saibas que sempre soubeste a verdade…  e saber a verdade é uma responsabilidade maior do que possas imaginar… E desapareceu, assim como tinha chegado.  Okay! Um anjo falou comigo, depois um duende, o bosque também e agora um mensageiro de luz mandado pelo universo… sim senhora, senhora dona alda maria, que bela história, pena que ninguém vai acreditar em ti, bom, mas também o que é que isso importa, hem? Nada! Quando recuperei do choque, depois de tudo o que fiquei a saber, comecei a compreender muitas coisas… Ah! Então era por isso que eu… e agora percebo porque fiz o que fiz, quando nem eu mesma  conseguia compreender as minhas atitudes em determinadas situações, e porque as coisas aconteciam de certa forma e os acontecimentos se repetiam, e eu tomava sempre o mesmo caminho e escolhia fazer sempre a mesma coisa, e porque… ah! então era por isso… agora começo a compreender… Há coisas que não se explicam, têm que ser experienciadas por cada um,e cada um tem uma forma diferente de despertar espiritualmente, mas é sempre durante uma longa travesia no deserto, ou de uma doença prolongada que o Universo nos põe à prova e testa os nossos limites, e nos apresenta as nossas escolhas, e nos obriga a tomar decisões e nos faz pensar. Há pessoas a quem o seu despertar surge apenas no fim dos seus dias, de uma forma calma, enquanto outras, por estarem demasiado longe de cumprirem o seu propósito de vida têm que virar o seu mundo do avesso para ficarem em contacto com o seu eu superior ou com o seu interior e dar-se então o seu despertar. É sempre uma experiência muito dolorosa, mas é praticamente  uma metamorfose. Há que morrer o velho, para poder entrar o novo. Há que deixar uma vida inteira para trás,para poder ser dado inicio a uma nova vida, novos cíclos. Transformar velhos hábitos,  largar conceitos ultrapassados… É escavar até às fundações para de novo construir em cima de alicerces novos. É nascer de novo. É como uma folha em branco, onde tudo se pode ainda escrever… É renascer, para poder de novo, ser…

 

Alda Maria

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