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Capitulo 1

 O Nascimento 

Domingo. Alfredo da Costa em Lisboa. É meio-dia e cinquenta e cinco minutos do dia 22 de Maio de 1960.Precisamente sete meses, após a minha mãe ter entrado, numa casa com ar suspeito, onde havia uma parteira que “desmanchava”gravidezes indesejáveis. Segundo consta, foi até lá por imposição do meu pai que achava na altura não ter condições para criar mais uma filha. (A minha irmã Paula tinha pouco mais de 2 anos e era filha única). Conta a minha mãe que não teve coragem para prosseguir com o aborto, até porque não era de sua vontade fazê-lo.  (Penso que me safei por pouco). O meu pai não voltou a tocar no assunto, presumo que mantinha a secreta esperança, de que eu nascesse rapaz, como ele tanto desejava. Não nasci rapaz, nasci Maria rapaz, pelo menos até à idade de começar a olhar para a sombra.

Aqui estou eu! Tenho o cabelo revolto, de um castanho muito escuro, que combina na perfeição com uns olhos vivaços a sobressaírem dos meus 2.525 gramas de gente. E não restam dúvidas a quem me rodeia… É tão gira!(A Aldinha, tão engraçada e cheia de vida, sempre a sorrir, não sabe ainda, que a vida é uma experiência tão alucinante, e que as palmadas que levou ao nascer, são apenas para ter um pequeno vislumbre do que vem por aí). Tenho lágrimas nos olhos e o meu mundo está de pernas para o ar.

 Caramba! Parece que nada mudou desde então…

 Capitulo 2

 A  Avó Pequenina 

Tenho 2 anos. Sou o centro das atenções, ou pelo menos tento. Os meus caracóis negros ondulam ao ritmo do baloiço, no quintal da casa dos meus avós. Moro, com os meus pais e irmã em casa deles, num rés-do-chão na Amadora. No 1º andar mora o Hélder, toda a gente diz, a brincar, que ele é o meu namorado. Estou sempre a pedir para ir brincar com ele, mas ele está sempre doente e nunca sai do quarto. (Nunca mais me esqueci do Hélder, o que será feito dele?). Lembro-me vagamente…da minha avó pequenina, (era assim que carinhosamente chamava a minha avó Maria, mãe de meu pai), ela a vir-nos acordar de manhãzinha, a mim e à minha irmã,para fazermos um bolo, no dia do aniversário da minha mãe, como surpresa. Ssshiuu…Devagarinho para não acordarmos ninguém… (Era assim a minha avó, que todos os netos adoravam. Também ela ficou para trás quando chegou a hora de partir).

Há um piano em casa, que os meus avós ofereceram à minha irmã antes de eu nascer. Lembro-me de ver a minha irmã sentada ao piano. Eu quero aprender, mas ainda sou muito pequena e não me deixam tocar… Não posso dizer que tenho muitas recordações dos meus primeiros anos de vida, pois as lembranças foram bruscamente interrompidas com a partida.

 Como folhas de um livro, rasgadas à força…

  Capitulo 3

 A Viagem 

Tenho 5 anos.Acabei de chegar a um país estranho, a África do Sul, onde falam uma linguagem que eu não entendo, o Inglês e o Africanso. Foi a primeira vez que andei de avião, e voar por cima das nuvens  é uma imagem que jamais esquecerei. (Ao longo da minha vida vou voltar a sobrevoar as nuvens, mas aquela imagem, vai sempre sobrepor-se a todas as outras). Os meus pais, inscreveram-me, num conceituado colégio Britânico, o St. Hyacith’s Girls School,por ser muito perto da vivenda onde moramos. As professoras são freiras, e ao invés de serem doces e afáveis, são ríspidas e severas. Rezamos, as orações diárias na capela do colégio, e as aulas são passadas a desenhar traços e bolas em cadernos grandes com quadrados enormes. Não percebo uma palavra do que dizem. No intervalo,vou ver as outras meninas a tocarem piano. Queria tanto aprender a tocar piano… (A Aldinha tornou-se numa menina tímida e envergonhada). Na Escola não comunica, e em casa não há lugar para a sua criatividade. Está sempre a dizer coisas engraçadas, mas o pai volta as costas, para ela não ver, ele a conter o riso. (É curioso, todos os homens que me amaram, começando pelo meu pai, nunca nenhum teve a capacidade de o demonstrar…). A Aldinha tornou-se uma menina mais calada, apenas o brilho dos seus olhos denuncia o que lhe vai na alma).

 Ela passa horas a desenhar e a sonhar acordada, imaginando que sabe voar…

 

 Capitulo 4

 O Urso

Estou na África do Sul há 3 meses, ainda não domino a língua e já me encontro à porta do Hospital para ser operada a uma apendicite aguda. Uma pose para a fotografia e já está! (Ficou registado para sempre aquele momento… Uma saia de xadrez plissada, muito curtinha. Um blazer vermelho a condizer. Soquetes brancos e sapatos pretos, como manda o figurino). Um sorriso amarelo a denunciar o medo e a falta dos dentes da frente, e o meu urso na mão.

 Sim! Porque eu não ia passar, não sei quantas noites fora de casa, sem levar comigo o meu melhor amigo; companheiro inseparável desde que me conheço. (Ainda hoje o guardo, já só tem um olho, coitado, é da idade, que está quase nos cinquenta. Sempre o tratei bem, apesar de ele me ter abandonado na minha primeira noite no hospital,caiu da cama de grades abaixo, e por muito que eu me esticasse, não o consegui alcançar. Chorei até adormecer de cansaço).

 Gosto muito de ursos, talvez seja por causa do meu pequeno amigo. Sou desenhadora de moda infantil, nas colecções que crio, e acabo sempre por desenhar ursos nas peças de vestuário. Antes de me separar costumava dizer em tom irónico:“ Gosto tanto de ursos que acabei por me casar com um…” .

 É verdade! O que não faltam por aí são ursos…

 Capitulo 5

Um Dia Especial 

 Tenho 10 anos. Hoje é um dia especial, 30 de Março de 1970. O meu pai acaba de entrar em casa, tão entusiasmado, com um brilho tão grande no olhar, que eu e a minha irmã temos dificuldade em acreditar que fala verdade, quando nos diz que temos mais uma irmã. Sempre pensei que ele iria ficar decepcionado, só falava em ter um filho rapaz. Parece que esqueceu esse pormenor, ainda bem! Já somos três! Todas raparigas.Tenho mais uma irmã. Vai chamar-se Júlia como a minha avó, mãe da minha mãe. Estou muito feliz por ter esta irmã. Foram nove meses à espera que nascesse,para poder brincar com ela. (Sempre tive um lado muito maternal,desde que me lembro de mim, que não podia ver um bebé sem que me desse uma enorme vontade de o agarrar).

 Infelizmente, não correu conforme eu imaginei, ela é muito arisca, não deixa que lhe pegue ao colo e lhe faça carinhos. Quero dar-lhe beijos e ela não deixa. (Por esse motivo adormeci muitas vezes a chorar, triste por pensar, que ela não gostava de mim como eu gostava dela).

 Não sabia nessa altura, que ao longo da minha vida, iria adormecer muitas, muitas noites a chorar…

 

 Capitulo 6

 De Novo no Hospital 

Ainda tenho 10 anos  e estou de novo à porta do Hospital. (Eu e os hospitais… agora que penso nisso…bem…não quer falar sobre esse assunto agora.… sei lá!). Vou ser operada à garganta para me tirarem as amígdalas. Tenho que passar cá a noite para ser preparada,pois vou ser operada logo de manhãzinha cedo.(Lembro-me que costumava adoecer muitas vezes com amigdalites, e ter febres acima dos 40º. Chegava a delirar e a ter estados alterados de consciência por causa disso). É melhor assim, desta vez vou sozinha! Deixo o meu melhor amigo em casa, até porque já sou uma senhora e pode parecer mal. Tenho uma imagem a defender! A única coisa boa desta história, é que já me disseram, que durante os dias que se seguirem à operação, vou poder entupir-me de gelados! Ah! e também vou poder faltar à escola. (Já que falo sobre isso,tenho uma confissão a fazer, nunca gostei de estudar).

 As freiras eram umas chatas e eu passava mais tempo no mundo da lua do que noutro lugar qualquer…

 Capitulo 7

 De volta a Portugal 

 Tenho 12 anos de idade e estou de volta a Portugal. O meu pai decidiu de um momento para o outro que seria melhor voltarmos. De novo as amizades são interrompidas, e começa tudo da estaca zero. A minha mãe, veio sozinha com as três filhas, e o meu pai ficou, para vender a casa. (Não vai chegar a voltar, ou por outra, volta dentro de um caixão para ser enterrado). O meu pai suicidou-se. A minha mãe recebe a notícia por telefone e grita durante horas. Quase morre por não se alimentar durante o mês que demora o corpo a ser transladado. Durante esse período não viu a luz do dia, só saiu da cama para ir assistir ao funeral. Eu não consegui ir, comecei a sentir ansiedade e falta de ar e acabei por ficar em casa. Faltei ao funeral do meu pai.

Foi uma época muito difícil, o meu avô, pai do meu pai, havia falecido um mês antes,e após 8 dias do meu pai se ter suicidado, a minha irmã mais nova, na altura com apenas 2 anos, foi atropelada e quase morreu. Durante o ano que se seguiu, a minha mãe obrigou-nos a andar de luto carregado (passei a odiar a cor preta durante alguns anos, hoje, é uma das cores com que mais me identifico), até a minha irmã com apenas 2 anos não escapou, mas ficou-se pelo preto e branco. Durante muito tempo em minha casa, não se podia, nem ouvir musica nem rir…

 Não festejei o meu 13º aniversário…

  Capitulo 8

 A Prisão

Estou prisioneira da minha tia, ela tem uma papelaria perto da loja da minha mãe. (A minha mãe abriu uma loja de retrosaria quando regressámos da África do Sul)A minha tia precisa de mim, para a ajudar na loja dela, a troco de quase nada. Sou uma criança. Acabei de fazer 13 anos. Sei perfeitamente,que aqui, a trabalhar na papelaria, não é o meu lugar, mas a minha mãe está debilitada,e para além disso, não quer ofender a minha tia, e ela serve-se do meu trabalho. O que nos primeiros dias era uma coisa engraçada que despertava a minha curiosidade,tornou-se numa prisão. Vou para a escola e quando volto sou obrigada a trabalhar. Não gosto mesmo nada de estar aqui. A única coisa boa desta história, é que na papelaria existem muitos livros para ler e muito papel para desenhar. Estão-me sempre a chamar a atenção para não “estragar” papel, mas é mais forte do que eu.

Há um piano em casa da minha tia. (É o piano que o meu avô deu à minha irmã antes de termos partido para a África do Sul). Tenho paixão por este piano. O piano está velho e desafinado, a minha tia já não o quer, e diz que posso ficar com ele para mim. Tenho um piano, quero aprender, mas a minha mãe não me deixa tocar. Se toco de manhã é porque faz barulho, se for à tarde, é o mesmo, e se for à noite, então… Quando mudamos não me deixa trazer o piano, (por ser demasiado complicado o transporte, alega), e dá-o de novo à minha tia.

Estou triste, e escrevo pequenos poemas, quase sempre demasiado melancólicos para a minha idade.

 Poesia que fala de sofrimento e de morte…

 Capitulo 9

 O Liceu em Lisboa

 Tenho 14 anos. Já terminei o Ciclo Preparatório e agora vou entrar para o Liceu. Escolhi a Escola de Artes Decorativas António Arroio. Desde sempre que digo:  “Vou ser pintora quando crescer”. É mesmo isto que eu quero, desenhar e pintar! É uma aventura! Como só há Escola de Artes em Lisboa, é para lá que vou. Meu Deus! Como é que eu vou de Odivelas para Lisboa, sozinha? É tão looonge… É muito giro o ambiente da minha Escola. Toca-se viola pelos corredores e canta-se. É uma escola de artistas, vestem-se roupas diferentes, e fumam-se “coisas estranhas”. Consta que até os professores… Com o tempo faço algumas amizades, mas não me misturo demasiado.Não fumo nem falto às aulas para ir ao cinema, como fazem quase todas as minhas amigas. Tenho um lado muito certinho e sou ao mesmo tempo irreverente. É uma combinação…não sei…que me torna diferente.

 Faço questão de marcar uma posição, de ter ideias próprias, de defendê-las, e de não me deixar levar pela maioria.

 Nunca serei, apenas mais uma no meio da multidão…

 Capitulo 10

 As Aulas

 Tanta matéria. Não é que eu não goste de cá andar, na escola, até gosto muito, mas o que eu realmente quero, é desenhar. Tanta matéria para quê? Não gosto de Matemática! Física, então…! História…Meu Deus! Mas o que é que eu tenho a ver com isso? As aulas de desenho são tão curtas, passam tão depressa! E mais matéria. Mas o que é que eu ando aqui a fazer? O Inglês é que é divertido, farto-me de gozar… Cada vez que apanho uma professora nova, é um “papelinho”. Depois parto-me a rir… Nos primeiros dias faço-me de distraída, como se não estivesse a prestar atenção.Depois é só esperar pelo primeiro teste! Tenho sempre 20. A professora está confusa, baralhada… Pensa: “De certeza que copiou tudo, mas há-de vir ao quadro fazer a correcção…”. Bingo! É mesmo isso que eu quero! A partir daí passo a estar atenta às aulas de inglês, muito atenta… A professora está definitivamente desgraçadinha comigo, aposto que transpira antes de entrar em cada aula. Cada erro que ela comete, (e é impressionante como os professores de inglês cometem erros),

 Eu ponho a mão no ar e digo. “ Teacher, that is not correct. “. Que mazinha…

 Capitulo 11

 Já chegou a Liberdade!

 Chegou?…a liberdade…a sério? Tirando aquela fase, em que me sentia prisioneira da minha tia, sempre me senti livre, ou por outra, com 14 anos não posso dizer que me sinto completamente livre. A minha mãe:“Ó filha, vê lá, tu tem cuidado, não gosto nada que vás todos os dias para Lisboa, fico preocupada, com medo que te aconteça alguma coisa. Vem mas é trabalhar, aqui para a loja. Davas-me jeito”.

 Cravos e mais cravos, e Grândola Vila Morena, e Uma gaivota voava, voava, de manhã até à noite a passar na rádio. O metro fechado e a escola também. Tanques e magalas, e mais cravos. Pessoas na rua com cartazes. Gritos de liberdade. É a revolução dos cravos. É o 25 de Abril! Ninguém sai de casa! Pode ser perigoso! É uma revolução! É o quê…? Mas que raio se passa aqui? Nem nunca tinha ouvido ninguém dizer, que tinha  falta da “dita cuja”!

 Já chegou a liberdade! …mas será que chegou mesmo…?

 

 Capitulo 12

 Sweet Sixteen

 Tenho 16 anos. Estou tão carente, como alguém que nunca teve um abraço, mas nem por isso, quer dizer,  que vou namorar com algum dos idiotas que andam atrás de mim, e que por acaso até são muitos. (Essa parte, juro que nunca percebi…) Não me acho nada de especial. Tenho mais complexos do que outra coisa qualquer, mas passo sempre um ar de convencida para disfarçar. Não compreendo o conceito de “estar apaixonado”. Olham para mim com aqueles “olhinhos de carneiro mal morto”, e só me dá vontade de lhes dar estaladas no focinho! Quem estiver pelo beicinho por mim, está mesmo desgraçadinho, porque eu lhe vou fazer a vidinha negra a gozar com o assunto… e de mim…Nada!  Homem nenhum toca em mim, que eu não deixo! Sim! Porque eu nunca, nunca, hei-de gostar de homem nenhum!

 Sim! Porque eu bem via a minha mãe, coitada, quando o meu pai chegava a casa, do trabalho, ela a ir buscar um alguidar e a lavar os pés ao “senhor doutor”. Deus que me perdoe, que a sua alma descanse em paz, mas o meu pai nunca fez a minha mãe feliz, apesar de ela insistir em dizer o contrário. Eu bem sei, porque assisti a algumas “cenas” e porque o ambiente em casa era de cortar à faca. Não se podia falar à mesa durante as refeições, e ele tinha sempre junto dele uma “varinha” (uma vergasta comprida e fininha) para manter o respeito. É preciso que se note, que ele era filho de um subchefe da polícia e tinha que manter a autoridade. Para além disso, o meu pai suicidou-se, e deixou a minha mãe com três filhas para criar. (Sempre achei que ele era um cobarde por tê-lo feito). Por isso prometi a mim mesma que nunca vou gostar demasiado de ninguém!

Por muito pouco, passaria a minha vida sem quebrar essa promessa!

Pela boca morre o peixe…

 Capitulo 13

 Só Amizade

Estou quase a fazer 17 anos. Há muito tempo que deixei a escola, para ajudar a minha mãe na loja. É uma loja de retrosaria  que vende aviamentos de costura, tecidos a metro, e alguma confecção. Como não há dinheiro para futilidades, não há para comprar as roupas de última moda que todas as raparigas da minha idade usam. Como a necessidade aguça o engenho, por esta altura já faço grande parte da minha roupa, mesmo ser ter aprendido.Vou fazendo e pronto, é sucesso garantido. Fica-me sempre bem!

No amor ando sempre desencontrada. Um ou outro rapaz, que desperte mais a minha atenção, acaba sempre por não se proporcionar. (Agora que penso nisso, sempre foi assim… nunca quis quem me queria e nunca tive quem eu realmente quis). Estou naquela idade em que quero namorar, experimentar, mas sou tão certinha que até chateia e não é politicamente correcto dar o primeiro passo! Vamos aos bailes nas Sociedades Recreativas e também na rua, durante os Santos Populares.Vou saindo com a minha irmã e com as minhas duas melhores amigas, a Fina e a Tina. (São amigas verdadeiras que conservo até aos dias de hoje). Juntamo-nos ao grupo de amigos da rua, num convívio saudável em que ninguém namora ninguém. É só mesmo amizade. (Vai continuar assim, só amizade, durante mais algum tempo).

 Que chatice! Não se pode pedir um rapaz em namoro porque parece mal.

Ai! Se eu soubesse o que sei hoje…

 Capitulo 14

 O Namoro

Tenho 17 anos. Namoro há dois meses com um dos rapazes do grupo, que já conhecia há cerca de um ano. Parece-me bom rapaz. É um ano mais velho do que eu.  Não estou apaixonada nem nada, mas talvez com a continuação acabe por gostar mais dele. Estou apaixonada pelo amor. (Só muito mais tarde cheguei a esta conclusão…) Não é que eu não goste dele, até gosto, mas penso que estou muito mais interessada na experiência em si. Estou carente e preciso de alguém que me ame, que me dê apoio, e que esteja junto de mim sempre que eu necessite. (Vou acabar por descobrir, que ele nunca vai estar lá quando eu preciso). Como sou de grandes afectos, não sei fazer nada pela metade. Entrego-me por inteiro a esta relação. Conto à minha mãe, e ele passa a frequentar a minha casa. O namoro aquece, e como somos os dois virgens, temos muito para aprender… e praticar…

 Gosto de namorar. Gosto de estar com ele, mas ao fim de pouco tempo começo a notar coisas que me desagradam. Ele tem um lado muito egoísta que eu vou descobrindo e desculpando, tentando sempre ser conciliadora e compreensiva. Tem uma forma de me decepcionar, sempre mais uma e outra vez. Esquece-se do dia do meu aniversário, e nunca chega a horas aos encontros. Nunca pede desculpa, mesmo quando lhe faço ver que me magoou, e vira sempre a conversa a seu favor. Diz que gosta de mim, e que sou eu que vejo problemas onde eles não existem.(Só uma pessoa carente como eu, poderia compactuar com tanta parvoíce. Vou ter sempre pela vida fora, nesta relação, um vazio por preencher).

 Caramba! Olhando para trás, não sei, porque acabei por me casar com ele…

Capitulo 15

 O Casamento

 Tenho 21 anos. Hoje é dia 27 de Setembro de 1981. Estou à porta da Igreja de Odivelas para me casar. (Pela primeira vez em muito tempo, sinto a falta do meu pai. Certamente que haveria de gostar de me ver neste dia. Sei que teria orgulho de mim). Foi um namoro de cinco anos, um pouco atribulado, mas eu sou uma rapariga responsável, e não viro as costas às dificuldades. Adoro o vestido! Fui eu que o desenhei e mandei executar. Não é um vestido de noiva tradicional. Desenhei um vestido justo ao corpo, e curto, à anos 50. Tem uma blusinha de renda transparente por cima, e um cinto que abotoa com uns quantos botões forrados. Os sapatos, elegantes, de salto muito alto, fazem-me parecer uma diva, e o chapéu, pequeno, com a rede para a frente, por cima dos olhos, é um pormenor “escolhido a dedo” e fica-me mesmo a matar! Para completar o visual, uso umas luvas de renda, feitas em croché, que mandei fazer especialmente para a ocasião. O bouquet são meia dúzia de botões de rosa brancas…e aí vou eu, a caminho do altar! Estou prestes a entrar para “O Clube das Casadas”. Estou feliz! Tenho mais de cem convidados entre familiares e amigos. Depois da Igreja e das assinaturas formais, tiramos as fotografias no Museu do Traje. O copo de água é em Loures no restaurante de uma tia. É um dia perfeito e corre tudo muito bem.

Nesse dia, o grupo todo, (que durante os cinco anos em que eu, e o agora meu marido, namorámos,tinha continuado a ser, apenas de amizade) inspirado pelo enlace, transformou-se em 4 casais. Começaram todos a namorar no dia do meu casamento, entre os quais estavam, a minha irmã Paula, e as minhas duas melhores amigas, a Fina e a Tina.

 Foi muito engraçado, dos quatro casais, três viriam também a casar…

 Capitulo 16

 A Lua-de-mel

 Estamos na a Costa de Caparica, a passar uns dias na praia,e depois vamos 10 dias para a Suécia, ficar em casa da minha tia “Quina”. (Irmã do meu falecido pai). A Costa tem um significado especial para mim, foi aqui que passámos as primeiras noites juntos, há dois meses,quando viemos cá passar uns dias de férias. Eu vim com a minha irmã e amigas, e fiquei num pequeno hotel,e ele ficou no parque de campismo. Foi sol de pouca dura, porque acabei a dormir na tenda com ele. Foi durante esses dias que decidimos, que estava na altura de casar.

 A Suécia é um país muito bonito, mas faz demasiado frio, e ainda estamos no princípio de Outubro. Será que está mesmo frio, ou sou eu que tenho? As pessoas andam pelas ruas em meia manga, a comerem gelados, como se estivesse um calor de rachar. E eu a bater os dentes! São lindos os pinheiros Escandinavos que pintam a paisagem de verde, assim como Estocolmo, bonita e evoluída, com os seus Palácios… É um país de conto de fadas, de reis e de rainhas… As lojas são enormes, com uma variedades que não é possível encontrar em Portugal.

Mas o que realmente me surpreende na Suécia, é o trânsito, de tão ordenado e civilizado que é.

 Não se ouve uma buzina a apitar… mesmo igualzinho ao meu Portugal…

 Capitulo 17

 A Gravidez

 Estou grávida! Não é de admirar, até porque nunca tomei nenhum contraceptivo, e ele também nunca se preveniu. Mesmo assim ele está contrariado. Vou ser mãe. É suposto ser um acontecimento importante para um casal,mas ele não partilha da minha felicidade. Estou feliz por mim e por ele, não importa, e passo a tratar “do que realmente interessa”, o enxoval do bebé. Faço questão que seja todo feito por mim. Está tudo tão giro! As camisolinhas, e as calcinhas, os casaquinhos, as botinhas… Faço tudo em azul porque vou ter um rapaz! Como é que eu sei? Sabendo.Vai ser um rapaz porque eu quero, e pronto!

 Mas o pior  é que ele não participa, e sempre importa, vai importando… Os pormenores que faltam: não passa a mão pela minha barriga, para sentir o bebé a mexer, e não diz que está feliz com a chegada do filho. Não é normal! Isto não pode ser normal! Quando se ama alguém, amam-se os filhos que se têm com essa pessoa, faz-se questão de participar na alegria da pessoa que se ama. Será que sou eu que estou a ver mal? Como é que alguém, que eu até acho que seja uma boa pessoa, pode ter uns padrões de comportamento tão atípicos?

 Que decepção! Todos os dias mais uma, e outra ainda…

 Capitulo 18

 A Prenda de Anos

Nasceu o David. É Sábado. De novo 22 de Maio, de novo Alfredo da Costa em Lisboa, mas desta vez estamos no ano de 1982, são 20 horas e 20 minutos e ele acabou de nascer, de Cesariana. Faço anos hoje. São 3.600 kg de prenda de aniversário. A melhor de sempre!

 Penso de novo no meu pai, queria tanto ter um filho e nunca teve. Acabei de lhe dar um neto, e ele não está aqui…

É tão lindo! É o mais bonito de todo o berçário,(e não sou só eu que o digo). Como nasceu de cesariana, não pode ficar junto de mim, e nos primeiros dias, tenho que me deslocar até ao berçário, onde se encontram todos os bebés. Apenas o posso ver através do vidro. Não aguento as dores, mas não consigo ficar longe dele. Até as visitas dos outros bebés dizem o mesmo. Olha ali aquele…Tão bonito! Não pode ser da minha vista… O meu filho é neste momento a coisa mais importante da minha vida. Já não concebo a minha vida sem este bebé. Tudo gira à volta dele; as horas certas para amamentar, os cuidados especiais, as fraldas, as vacinas, as vitaminas, as gotas… Com um recém-nascido, todos os cuidados são poucos.

 Deram-me alta e vou hoje para casa. Mal posso esperar para tê-lo só para mim, dar-lhe banho e vestir-lhe aquelas roupinhas todas… Por falar em roupas… estou com a impressão de que não vou ter nada que me sirva.

 Meu Deus! Engordei 16 kg durante a gravidez e com a cesariana só perdi 6 kg…

 Help! O que é que eu faço aos outros 10…?

 Capitulo 19

 O Menino Jesus 

É o menino nas mãos das bruxas. É o primeiro filho, o primeiro neto, o primeiro bisneto, o primeiro sobrinho, é mesmo um autêntico Menino Jesus. Só tenho olhos para ele, até porque exige toda a minha atenção e cuidado. Acordo durante a noite para amamentar e ando cansada. De tanto lhe pegarem, agora só adormece ao colo, e está a ficar tão pesado que já tenho os pulsos abertos.

 Come e dorme que nem um abade e cresce a olhos vistos. É grande para a idade, e parece mais velho do que realmente é. O meu filho está a crescer bem, é uma criança saudável e feliz. Tem tudo, só não tem um pai. O meu marido não brinca com o filho, como os outros pais fazem. Tem ciúmes do amor e da atenção que lhe dedico. Sente-se excluído porque não participa.

 É muito precoce, aos 2 meses já palra, aos 6 meses diz as primeiras palavras, aos 10 meses começa a andar, e com 1 ano de idade já diz palavras como: Frigorífico, Checoslováquia e Enconstanticionalíssimamente.! Com pouco mais de um ano já desenha pequenos círculos, em vez de apenas riscar, como fazem as outras crianças da sua idade. A culpa é minha, que quando estava grávida desejei que ele herdasse de mim a vocação para as artes, e isso sei que herdou. O meu filho é muito inteligente, (é natural, o meu pai era inventor), e eu entretenho-me a “puxar” por ele. Sei que ele é sobre-dotado nalgumas áreas, mas, quando crescer, logo se verá.

 Vai ser, o que ele quiser ser, quando crescer. Nunca vou impor ao meu filho, uma crença, uma profissão ou outra coisa qualquer. Quero apenas que ele saiba, que pode sempre contar comigo, seja qual for o caminho que ele escolher. Vou ensiná-lo a distinguir o bem do mal, por isso, será certamente, uma boa pessoa. Nunca vou desejar que o meu filho seja médico, advogado ou arquitecto. Apenas desejo que seja feliz.

 Posso dar-lhe tudo, mas nunca lhe vou poder dar um pai de verdade, é pena…

 

 Capitulo 20

 O Negócio

 As roupas que aprendemos sozinhas a fazer, eu e a minha irmã, há muito que se tornaram num negócio. Primeiro foram postas à prova no estabelecimento, que aos poucos se transformou, de retrosaria, para loja de vestuário, e agora já temos duas costureiras a confeccionar, e não chegamos para as encomendas. Precisamos de espaço. Estamos a trabalhar na parte de cima da retrosaria, onde não cabem mais máquinas de costura. Passamos para uma parte da casa da minha mãe, contratamos mais costureiras, e continuamos apertados.

É urgente arranjar instalações, para poder crescer. Está à venda um armazém, mesmo em frente à casa da minha mãe. Acabou de ser construído, e a primeira ideia que tivemos, foi comprá-lo. Mas com que dinheiro? É tão caro…Quase 3 mil contos!

 Pensar… pensar…pensar… Alda Maria.

Tive uma ideia, vamos comprá-lo! Já sei como havemos de fazer! Todos aqueles fatos de Carnaval que fazemos para a loja, e que se vendem tão bem, podíamos fazer alguns milhares  e vender para as outras lojas revenderem. Mas será que se vão interessar? Não sabem como se vende bem, nunca tiveram…

 Já sei!

Vamos fazer e colocamos à consignação durante a época de Carnaval, quem é que pode dizer que não a isso? Vão vender-se como pães quentes! Mas…para fazer milhares de peças são necessários milhares de metros de tecido, sem contar com os acessórios e adornos, só isso pode custar mais de mil contos! Bem, há-de ser o que Deus quiser! Compramos os tecidos, pagamos com uma letra a 60 dias, temos 40 dias para confeccionar e distribuir e 15 dias para vender…

 E agora é só recolher as sobras…e… R E C E B E R ! ! !

 Capitulo 21

 A Fábrica

Eureka! Foi em cheio, demos no 20! Venderam-se grande parte das mascaras de Carnaval, eu e a minha irmã recolhemos as sobras e recebemos o dinheiro. Tudo em cash!!! Mais de 2 mil contos em notas enfiadas numa mala. (Parece uma cena tirada de um filme). Nunca tinha visto tanto dinheiro junto… Mal posso acreditar! Aconteceu exactamente como planeáramos. Pagamos a letra ao fornecedor, e ainda sobram mais de mil contos para dar de sinal ao armazém. É a nossa primeira fábrica.

 Estamos de mudança. Compramos mais máquinas de costura e contratamos mais pessoal.

 Estou com 24 anos e o David já tem dois, serve de inspiração para as colecções, e às vezes também serve de cobaia. As colecções estão cada vez mais elaboradas, já expomos em grandes certames, e estamos representados em todo o país e nas ilhas.  As vendas duplicam em cada estação.

As instalações que nos pareciam enormes na altura, cerca de 180 m2, estão de novo a tornarem-se pequenas, não temos mãos a medir. Os clientes adoram tudo o que eu desenho, e não podia estar a correr melhor. Já há algum tempo que o meu marido e também o marido da minha irmã, deixaram os respectivos empregos para poderem ajudar no que for necessário.

 O David está com cinco anos, quase a entrar na Escola, e eu estou de novo…

 Capitulo 22

 Grávida 

 Tenho 27 anos, e acabei de apanhar o maior choque da minha vida. Não, não foi ter descoberto que estava de novo grávida, o David tem cinco anos e sempre pensei em dar-lhe um irmão. Não foi programado. Tirei o DIU (dispositivo inter uterino) há cerca de dois meses, por ordem da minha ginecologista, que me aconselhou a fazer um repouso de 2 meses antes de colocar de novo outro dispositivo, e foi tiro e queda!

 Eu avisei que estava sem protecção, mas ele não me pareceu preocupado. E Pimba! Deu positivo! (Mas este é de todos, o capitulo mais negativo da minha vida). Uma mulher casada, grávida, não pode, não deve, ou por outra, não deveria nunca por nunca ser, passar pelo que eu estou a passar.

Estou

grávida

e

o

meu

marido

não

me

fala!

A vida continua…

 A vida cresce dentro de mim, assim como a minha barriga e a minha raiva pelo pai dos meus filhos.

 É o princípio do fim do meu casamento, embora tivesse durado 20 anos mais…

 

 Capitulo 23

 O Meu Bebé

 

Nasceu, o MEU filho, mais uns dias e fazíamos anos todos na mesma data. Todos os três, claro! (Vamos ser sempre uma família só de três). De novo estamos em Maio, mas no ano de 1988, e de novo na Maternidade Alfredo da Costa em Lisboa. Hoje é dia 5 e são onze horas e cinquenta minutos. Ele pesa 2.950 gramas.

 O Rafael nasceu pequenino, porque eu não me alimentei como na primeira gravidez. Por um lado, já tinha recuperado a forma e não queria repetir a “gracinha”, e por outro, também não posso dizer que tivesse tido muito apetite. Não é fácil ter apetite quando não se está feliz. Voltou, mais uma vez, a estragar a minha alegria, mas eu nunca vou dividir os meus filhos com ele, porque não confio. Por esse motivo escolho ficar. Tem que ser, por eles, até que sejam uns homens…

 Entrego-me ao trabalho e aos filhos, o Rafael raia o hiperactivo, e dá trabalho como se fossem trigémeos. Não dorme sem o Tweety. (Um pinto amarelo que passa as passas do Algarve nas mãos dele). É tão engraçado! É a minha cara, e até tem os meus caracóis. Não pára quieto nem um segundo que seja, e diz coisas que são de escangalhar a rir. Requer cuidados de vigilância constantes, com risco de poder magoar-se seriamente.Tomar conta do Rafael é um trabalho a tempo inteiro, e é preciso não esquecer, de que ainda tenho o trabalho na fábrica…

 O meu marido só tem mulher, e eu só tenho filhos…

 Capitulo 24

O Baptizado

  24 de Dezembro de 1990. Hoje o Rafael vai ser baptizado, nas vésperas de Natal, (o irmão também foi baptizado na mesma data e com exactamente a mesma idade) aos 18 meses. Vamos à Igreja para a cerimónia, e depois, festeja-se o Baptismo e o Natal. A diferença, é que o David era sossegadinho, enquanto o Rafael… Valha-me Deus! Não consigo segurá-lo. Estão a ser baptizadas várias crianças ao mesmo tempo, e o meu é o único que está no altar, junto ao padre. Todos os outros estão ao colo dos respectivos pais; uns porque são ainda muito bebés, e os outros, porque não se chamam Rafael!

 Contorce-se e escapa pelo gradeamento de madeira, como estou na primeira fila, o altar é logo ali… e o belo do Rafael, começa a descalçar os sapatos e as meias  perante o olhar reprovador do Padre, que, sem interromper a cerimónia, vai lançando uns olhares… e umas “tosses”… Rafael… Rafael…anda cá. Olha, aqui… toma, tenho uma coisa para ti……Sussurro…tentando chamar a atenção dele sem perturbar a cerimónia.

 Se bem o conheço,e eu o for buscar à força, sem ele ter explorado as imediações convenientemente, podemos estar a falar de algo bem pior…A tão temida….Birra! E se bem me conheço, pode acontecer algo ainda bem pior… Eu…com um ataque de riso!

O momento é solene.Pais e padrinhos, simultaneamente, seguram a vela, acesa, e ele a fazer força para puxar a vela para baixo e soprá-la. (Não admira, andei a ensiná-lo a soprar a vela para festejar o seu primeiro aniversário. Caramba! Tem mais força de que nós todos… Juntos!).

 Posso garantir, que não há nada, que assuste mais uma mãe,

do que a birra de um filho num lugar público…

 

 Capitulo 25

 O Pai Natal 

O meu marido está vestido de Pai Natal, para a distribuição das prendas. (Fiz o fato e arranjei-lhe o “cargo”) É o segundo Natal que fazemos a brincadeira para as crianças, e acredito que nos divertimos mais do que elas. As prendas, são mais do que muitas. É um exagero! Ficam escondidas dentro da carrinha até que chegue a hora do “Pai Natal” entrar em cena. Depois, é a loucura total! Os três miúdos a rasgarem papel de embrulho. (Nesta altura, a minha irmã já tem uma menina, a minha sobrinha Sofia). O David está com 7 anos,e entre outras coisas, recebe uma bicicleta, e um skate, como tinha pedido ao Pai Natal, na cartinha compriiiiiiida que lhe escreveu.

 O Rafael, por muito estranho que possa parecer, devido à sua tenra idade, recebe também um skate, mas mais pequeno. (O Rafael, com apenas três meses já se segurava em pé agarrado às grades da cama durante alguns instantes, era demais! Como tal, não me admiro, que ele, com um ano e meio já ande de skate, estou habituada). Mas ele, não está satisfeito. Vou dar com o menino Rafael a meter o skate dele, (mais pequeno), em cima do skate do irmão, (maior), e a tentar andar de skate assim… Não posso tirar os olhos de cima dele!

 Foi um dia atribulado, mas não posso dizer que tivesse corrido mal. (Se passar por cima de algumas contrariedades e imprevistos). Depois da cerimónia na Igreja, fomos almoçar ao restaurante El Rei D. Dinis, onde sou cliente habitual, e segue-se o lanche em casa, com o bolo de Baptizado, e à noite, a consoada e as prendas.

 O imprevisto foi que a minha “rica sogra”, depois do almoço, resolveu passar por casa dela.

Não apareceu para o lanche, nem para a consoada. Não veio.

Esperámos por ela quase até às onze da noite antes de comermos o bacalhau… já frio…

 

Capitulo 26

 O acidente 

 Morreu o marido da minha irmã, apenas com 32 anos de idade. Como é que isto pode ter acontecido? E porquê? A minha mãe revive de novo a sua viuvez. Recebe a notícia à porta do bloco operatório, e corre aos gritos a agarrar-se à minha irmã.

 Fico calada. Não há nada que eu possa dizer, nem nada que eu possa fazer. Estou em choque. Não consigo chorar, e repito vezes sem conta, a tentar perceber o que é a morte: …Morrer é….nunca mais…

 Quando o meu pai morreu, eu era ainda uma criança, agora não, por isso já sei o que me espera. Esperam-me meses de angústia, de dor e de tormento, de assistir à viuvez da minha irmã, à dor da minha mãe, dos pais e irmã dele, e aos meus sobrinhos a perguntarem pelo pai. Morrer por causa de um estúpido acidente de automóvel. Mais! Morrer, por não trazer posto o cinto de segurança. (Pouco tempo depois entrou em vigor a Lei de obrigatoriedade do uso do cinto de segurança, mas para o meu cunhado chegou tarde de mais).

 A minha irmã mais nova, a Júlia, adia 6 meses o casamento.

Seguem-se mais tempos de dor e de luto….

  Capitulo 27

 A Carta

Tenho 31 anos. Faz uma semana que o meu cunhado morreu, e eu estou na Escola de Condução para tirar a carta. O único encartado era ele, e agora alguém tem que saber conduzir, porque é essencial para o bom funcionamento da empresa. A minha irmã está frágil e o meu marido não tem espírito de iniciativa.

 Vou eu! Claro que existe aquele receio, como uma sombra, e eu estou com algum medo. O meu cunhado acabou de morrer, precisamente num acidente de automóvel, e eu aqui… Não há-de ser nada! Até gosto muito de conduzir, se soubesse que gostava tanto, tinha tirado a carta há mais tempo.Passo o código e vou a exame de condução.

 Estou super nervosa. O examinador tem cara de poucos amigos, e pede-me para fazer uma inversão de marcha numa rua muito estreita, com carros estacionados nos dois sentidos, em segunda fila. É certinho… Tento esticar o espaço ao máximo e, Pimba! Já está!

 No Porto, a marcação de exames é quase de um dia para o outro. Já aqui, em Lisboa, estão a demorar cerca de um ano, para chamarem de novo a exame. Não posso esperar tanto tempo. Se tem que ser lá, é para lá que vou! Faço as malas e vou passar uma semana ao Porto. Volto encartada.

 Depois é só ir levantar ao Stand o meu primeiro automóvel, um Honda Civic, preto.

 Novinho em folha…

 

 Capitulo 28

 A Fábrica Nova

 700m2 é a área da fábrica nova. (Era para lá que se dirigia o meu cunhado, quando o seu carro derrapou num derrame de óleo na estrada.Ia ao encontro do empreiteiro que tinha previsto fazer o orçamento ara as obras de melhoramento nas novas instalações).

 Estamos de mudança,  mas o que era para ser uma coisa boa, para ser vivida com entusiasmo, tem agora um sabor amargo. Por um lado até é bom, nesta altura, haver uma mudança para fazer.(O meu cunhado trabalhava connosco nas instalações antigas, e ter que frequentar todos os dias um local onde era suposto ele também estar… enfim…).

 Está um luxo. Estamos com muito dinheiro e pouco apego a ele, devido às circunstâncias. Não poupamos em nada, gastamos algumas largas dezenas de milhares de contos em equipamentos e montamos uma das mais modernas fábricas de confecção da região. Somos os primeiros  na zona de Lisboa, a ter um equipamento de moldes computorizado. Só isso, custa uma autêntica fortuna. Os escritórios, a sala de reuniões, o show-room, a cantina para as 50 funcionárias, está tudo uma maravilha. Foi para isto que trabalhámos todos estes anos. (Nessa altura não sabíamos que o pior ainda estava para vir).

 Investimos tudo o que tínhamos, precisamente na pior altura.

 Estamos em 1991, dá-se a Guerra do Golfo e fala-se em crise pela primeira vez…

 Capitulo 29

 A Crise

 É uma bola de neve, fala-se em crise, a esperança é, que seja passageira, mas em vez de melhorar, agrava-se.  As Vendas, que há muito duplicavam em cada estação, começam a baixar em percentagens preocupantes, logo agora, quando acabámos de fazer um investimento brutal. Para ajudar a piorar a situação, abrem as primeira “Grandes Superfícies” que fazem mossa nos nossos principais clientes, as lojas de rua, o chamado “ Comércio Tradicional”. Depois, chegam os Espanhóis. Sem quotas definidas pelos nossos governantes, “Nuestros Hermanos” vêm para arrasar. Estão preparados para dar resposta a um mercado enorme, e Portugal, é para eles apenas mais uma Província. “No passa nada”.

 As despesas são neste momento demasiado elevadas,porque agora o barco é muito maior, as águas bem mais profundas, revoltas, e perigosas.

 Não percebemos a tempo que o mercado jamais recuperaria, e que a chamada crise só tinha tendência a agravar, sempre mais uma e outra vez. Nos primeiros anos ainda há capital para continuar, mas a luta torna-se cada vez maior, já não se trabalha pelo prazer de crescer, trabalha-se para poder manter o emprego aos trabalhadores. Very big mistake…

 Fomos sempre reinvestindo tudo. Não cheguei a comprar a vivenda na praia …

  Capitulo 30

 As Consequências

 Passaram-se 10 anos. Tenho agora 42 anos de idade. Não sou feliz, nem no trabalho, nem no casamento, embora todos pensem o contrário. Estou presa na sólida teia que ajudei a construir à minha volta. É impossível desfazer este nó, de tão apertado que ele está. Sufoca-me e tira-me o ar de que tanto necessito para viver. Tenho, não sei quantas razões para não estar bem. A fábrica tornou-se um autêntico pesadelo, e o meu marido, arranja sempre uma maneira de me continuar a surpreender. Pela negativa, claro!

 Os meus filhos, que eu adoro, serão sempre o maior factor de desentendimento entre nós. O desgaste de tantos anos a conviver diariamente, tanto em casa como no emprego, até poderiam servir de desculpa, mas não, não é isso, é muito mais do que isso…

 Falta-lhe o lado humano, a compreensão, a palavra certa, a atitude correcta perante as situações. “Nunca está”, quando mais preciso dele. Não me apoia nem me ajuda,  não sabe conversar sobre o que me incomoda, e quando tento  abordar os meus descontentamentos, ele simplesmente não quer conversar. O relacionamento dele com os filhos é inexistente.

 Não há explicação para isto! Casei com um deficiente emocional, e isso pesa cada vez mais. 

Vou enviando para o universo, sinais de descontentamento, suspirando por afecto, desejando ter outra vida, ser outra pessoa, viver noutro lugar, voltar a amar … Sim, porque há muito tempo que o meu coração é livre, e eu tenho plena consciência desse facto. Caminho pela vida com os olhos fechados para não ver, e mantenho as pessoas a uma distância segura para não correr riscos desnecessários. Sou uma mulher casada com uma sólida formação moral, e apesar de não me sentir completa, nunca vou trair o meu marido, não por respeito a ele, mas por respeito a mim!

 Disse-lhe muitas vezes: Se não estás quando preciso de ti, não preciso de ti quando estás!

Como sempre, não me deu ouvidos…

 

 Capitulo 31

 A Conspiração   

 Estamos em 2002. A minha irmã Paula está prestes a casar, após 12 anos de viuvez, e eu não me sinto bem de saúde. A semana passada, no dia seguinte à despedida de solteira dela, perdi as forças e agora mal consigo falar. Não me sinto bem. Já fui ao médico, e ele disse que eu não tenho nada de preocupante. Sei que me alimento mal, sou pior do que uma criança pequena, só como porcarias, e os disparates alimentares são mais do que muitos. Estou a tentar perder uns quilos até ao casamento, talvez seja por isso…

 Estou a fazer um vestido para a ocasião. É um vestido comprido, de um azul-turquesa muito suave, adornado com uns milhares de pedrinhas pregadas à mão. Comprei umas sandálias lindíssimas com pedras turquesa a combinar.O dia aproxima-se. É um dia para estar bem, comer, beber, dançar, e eu mal me consigo mexer.

 É hoje, dia 29 de Julho de 2002 Vou, mas não levo a roupa que tanto trabalho me deu a fazer. Ontem fui comprar outro conjunto à pressa, estou cheia de frio e não posso ir “de alcinhas”.

 Procuro, após o casamento, pelo meu primo direito, que é director clínico nos infecto-contagiosos do Hospital Curry Cabral.

 Por sorte está de banco e é ele que trata de mim. Estou com uma anemia grave. Seguem-se exames e medicamentos  a que tenho pouca tolerância. (Isto era apenas o principio… precisamente um ano mais tarde, estou a dar entrada nas urgências do Hospital de Santa Maria, e quando digo precisamente, quero dizer no dia 29 de Julho de 2003.)

 Nessa altura já o Universo conspirava e planeava grandes mudanças na minha vida.

 Era o início de um ciclo de sete anos, mas nessa época eu ainda não sabia…

 Capitulo 32

 O Universo

 O Universo continua a conspirar, (é impressionante como as coisas acontecem… 11…22…33…) quem comanda,

não se poupa a esforços para me fazer “ver”. Vejo números repetidos em todo o lado, principalmente no meu telemóvel. Acordo de noite,de repente, como se alguém me abanasse e forçasse a abrir os olhos, e são sempre, invariavelmente  3:33…4:44…5:55… (mas ao início, nem quero acreditar, e fujo de pensar, que estou a ver, o que estou a ver…).

 Pedi! (e agora vou ter, mas vai demorar. Vou ter tudo, tudo o que pedi a Deus, mas primeiro,vou ter que abrir mão de tudo o que tenho, para depois me ser dado tudo o que pedi. Agora sei, mas na época…Céus!).

 Estou anémica, a ser medicada, e começo a menstruar…litros! Apenas consigo pensar que vou morrer. Tenho uma poça de sangue à minha volta, e a última coisa que deveria estar a acontecer, era eu a perder sangue. Nem a cabeça consigo levantar da almofada. Estou, com o meu primo ao telefone, e mal tenho forças para falar.(Estamos em Agosto, e ele encontra-se de férias). Vai-me acalmando e dando indicações. Manda que tenha as pernas subidas em relação à cabeça e que não pare de beber água. Diz que assim que chegar a ambulância, que dê instruções para ser colocada a soro: “foi ele que mandou”.

 Telefono à minha Ginecologista, não está de serviço, mas “prepara o caminho”. Espero mais de uma hora e meia pela ambulância. Quando finalmente chega, deitam-me na maca, e põe-me uma almofada por baixo da cabeça. (Em vez de, por baixo das pernas). Não trazem soro. A viagem de ambulância (para quem não saiba) é uma triagem, os mais fracos, morrem “da viagem”. Tenho médicos à minha espera quando chego à Maternidade Alfredo da Costa, e sou imediatamente posta a soro. Não chego a levar transfusão de sangue, até porque sou O RH negativo.

 Pela primeira vez, o meu marido tem a real noção, de que me pode perder,

está completamente transtornado com a possibilidade. Mal sabe ele…

 Capitulo 33

 As Complicações

 Caramba! Não sei o que se passa com a minha vida, está tudo a acontecer ao mesmo tempo. Meu Deus! O que será que tudo isto quer dizer? Estou a ser preparada para morrer? Nada disto faz sentido… A medicação que me foi prescrita na Maternidade, tomei-a dois dias, e fui obrigada a interromper. Estou com o inicio de uma flebite. O fluxo sanguíneo tem que ser forçosamente estancado por causa da anemia, e agora já não pode ser pela via mais rápida, a da coagulação.

 Tem que ser por via hormonal. Receitam-me umas injecções,que vão demorar mais alguns dias a fazerem efeito. Não tenho escolha, vou ter que tomá-las durante seis meses para não menstruar, o que, supostamente, me dará tempo para recuperar da anemia. Entretanto, vou fazer exames para que sejam detectadas as causas. É-me diagnosticado um espessamento no endométrio. Temo que haja mais do que isso, mas tem que ser feita uma biopsia. Apenas há marcações para este exame especifico, daqui a vários meses, e fora da Maternidade, não é fiável, segundo sou informada.

 As injecções,têm umas contra-indicações, que francamente, nem quero pensar. Sou alérgica a medicação. Já passei mal com alguns medicamentos, e só tomo, se o risco de não os tomar for maior do que o risco de tomá-los. É este o caso. Tomo e pronto.

 Altera-me o colesterol,que sobe para os 220, os triglicéridos disparam para os 350. Desenvolvo um sindroma vertiginoso e já não sei o que hei-de fazer à minha vida!

 As primeiras análises, antes da medicação só apresentavam a anemia, e agora…

 

 Capitulo 34

 Outra Vez Não! 

 Foi um ano de cão. Não, não me estou a referir ao calendário Chinês! Outra vez Agosto! Mais umas férias estragadas. Dei entrada no dia 29 de Julho e fiquei logo cá. Agora estou mesmo… Internada, no Hospital de Santa Maria.

 Entro aos gritos nas urgências do Hospital, depois de ter passado horas em casa a vomitar, a contorcer-me com dores, e a pedir ao meu marido que me levasse ao hospital. Digo-lhe que nunca tive umas dores assim, estas são diferentes…

 Pelo amor de Deus! (Sofro de dores de estômago desde os 14 anos, o normal para mim, é  provocar o vomito que alivia, mas este caso não é igual e eu sei disso. Leva-me sim, mas primeiro vai preparar uma cuba livre, que bebe nas calmas e fuma um cigarro para se acalmar…foi a desculpa, mais tarde).

 A culpa é minha,vou estragar-lhe de novo as férias, como no ano passado. Ainda por cima, já fiz os 6 meses de medicação e ainda não recuperei da anemia, de novo voltei a ter fluxos abundantes e a semana passada,estive de novo nas urgências da maternidade com hemorragias, não admira que ele precise de cubas livres, coitadinho…

 Foi na semana passada! Não acredito nisto. Estive a soro na Maternidade e agora estou aqui toda entubada. Mas que raio se está a passar?

 Não há analgésicos no hospital, dão-me morfina, e passam-me as dores. Tenho uma pancreatite aguda, vou ser medicada para ser operada assim que for possível.

 Fico internada durante um mês, isso irá mudar para sempre o rumo da minha vida…

 Capitulo 35

 O Deus Grego

 Morri e fui para o céu. O meu médico tema a cara de um anjo e um sorriso… (Só o conheci depois da operação, quando no dia seguinte me veio consultar aos cuidados intensivos, mais tarde lembrei-me de já o ter visto noutra ocasião). Estou sentada numa cadeira de rodas (pronta para ser levada, de novo, para a enfermaria), quando ele chega. Tenho vestido, uma daquelas “camisas de dormir dos hospitais” (que mais parece uma bata), abotoada à frente com fita adesiva por falta de botões. (Very sexy). Baixa-se à minha frente para me auscultar, e tentamos os dois abrir a bata ao mesmo tempo. Dou-lhe um puxão, e … fico muito quietinha, enquanto ele avalia a situação. Não tenho nada vestido por baixo, e não sei quanto da bata abri…

 Tem uns olhos verdes… Caramba! Isto ainda deve ser efeito da anestesia. Okay! Estou doente, mas não sou cega. Sou casada, mas não estou morta, ainda… Podia ter morrido, e ainda nem vivi…  É tudo o que eu imaginei que um homem deveria ser, e muito mais. Sei lá, parece que já o vi em qualquer lado, deve ser isso. Estou tão fraca, acabei de ser operada e baixei a guarda.

 Brinco com a situação e conto às minhas irmãs na hora da visita, com o meu marido a assistir. Ri-se, ele não é ciumento. Confia cegamente em mim e tem motivos para isso, sabe que estou a brincar. (Nessa altura ainda estava). Vocês queriam, (dizia eu para elas), era estar aqui, no meu lugar, e serem tratadas por um Deus Grego…

 O meu marido nesta altura, tem a noção de que eu podia realmente ter morrido,um mês em casa a dormir sozinho… Desfaz-se em atenções, (só falta andar comigo ao colo), está agarrado a mim como uma lapa, logo agora …

 Que eu começo seriamente a pensar, como seria a minha vida sem ele…

 Capitulo 36

 As Operações

Deram-me alta e já posso ir para casa. Tenho ainda algumas perguntas a fazer antes de sair: se posso, e o que posso comer, entre outras. É tão querido! Senta-se na beira da minha cama, e responde a todas as minhas questões com meiguice e simpatia. Chega entretanto outro médico, que também faz parte da mesma equipa  olha para a cena com uma expressão estranha, olha para cima durante uns instante com um sorriso esquisito, e sai.

 “O gajo é maluco”, pensei eu, está com cara de quem está a “segurar a vela”. Parece que é parvo… que reacção tão estranha. (Só muito mais tarde entendi, que o outro médico, muito mais velho, tinha visto, o que eu demorei ainda algum tempo a perceber, e na altura já estava estampado na minha cara).

 Estou completamente apanhadinha!…e ainda não sei. Recomenda-me que venha ao hospital na segunda-feira seguinte para ser seguida.

 Não fiz apenas uma operação, fiz duas, que no total era suposto terem a duração de 3 horas, mas a coisa complicou-se e estive no bloco operatório durante cerca de 6 horas. Tiraram-me a vesícula, por via laparascópica, com uma pedra do tamanho de um ovo, e “aproveitam” para me tirar o útero. Anuí, por estar demasiado fragilizada. Mal sou internada, chamam-me da Maternidade, para fazer o exame pelo qual espero há meses. Estou toda entubada e a soro, não posso ir. Uma médica sugere: “Já que vai ser operada para lhe ser retirada a vesícula, aproveita-se a anestesia e tira-se o útero também…”(Quase me senti agradecida pela sugestão, o meu pânico era tanto de voltar a menstruar, ali deitada sem me poder mexer, só de pensar em sangue ficava aterrorizada. Estúpida da médica, que não tem outro nome,eu não me encontrava em condições psicológicas para tomar uma decisão tão importante).

 Sempre ouvi dizer que os hospitais são lugares perigosos, agora percebo porquê.

 Entrei para lá com uma pancreatite e saí com uma paixonite …

 

 Capitulo 37

 A Recuperação

  A recuperação é lenta e difícil, pelo facto de estar anémica… e não só… Volto ao hospital na segunda-feira seguinte conforme me tinha sido recomendado, e pergunto por ele. “O Dr. já não trabalha cá” Ahnn!? Ai! Meu Deus! O que é isto que eu estou a sentir? Porquê este aperto no meu peito…O que me pode importar a mim a ausência de um estranho? Alguém que mal conheço…

 Não estou nada bem, devo ter perdido muito sangue durante a operação, e estou cada vez mais fraca. Queixo-me da falta de força, de uma perna que ficou dormente e das costas,  que até meio, não sinto nada, parece borracha. Sou vista pelo médico que está de serviço, está tudo dentro do normal, diz. É tudo normal, mas eu… Continuo sem forças. Sinto que estou a piorar, estive no hospital segunda-feira e não me fizeram nada,  já hoje é sexta-feira e continuo sem sinais de melhoras, muito pelo contrário. Estou sozinha em casa, (o meu marido está a caminho de Leiria para visitar um cliente) quando tento levantar-me e caio no chão.Quase perco os sentidos.

 Ligo-lhe. Ele dá meia volta e toma de novo o caminho de Lisboa. Leva-me de seguida às urgências do Hospital de Santa Maria.

 Quem haveria de me atender…Está aqui? Foi-me dito que já não trabalhava cá! Queixo-me de tudo o que sinto: “ Não estou bem, não estou nada bem”, (choramingo). “É normal, depois de ter sido sujeita a duas intervenções cirúrgicas”.  (Afirmas, com toda a paciência. Eu estou assustada e preocupada, sei que há algo de errado comigo, em breve tenho que voltar a trabalhar, tenho uma colecção inteira para desenhar, já temos a sala de Hotel reservada e os clientes marcados e eu ainda estou assim…).

 “Está a portar-se como um bebé, e não como uma senhora de…”

 Capitulo 38

 A Descoberta

 “43 anos”.(Dizes, com paciência e simpatia).  Abano a cabeça com um ar franzido de quem nega a descoberta. “Pois, devem ter-se enganado aqui a escrever a idade…34 anos”. Aceno a confirmar com um sorriso. Mas eu não estou convencida, e as queixas continuam…“Você é o meu Karma!” (Dizes, e nem  te passa pela cabeça a verdade que estás a dizer). “Está bem! Eu vou, mas eu volto!” (Respondo, a sorrir e com um dedo no ar, sem saber ainda que estava a ditar uma sentença… a minha).

 Levanto-me e estou de saída, quando o meu marido, (que assistiu de plateia ao principio do fim, resolve despedir-se dele com um aperto de mão). Boa ideia!  Estendo a minha mão também. (e foi aí, nesse preciso instante, que eu fiz a mais surpreendente e desconcertante descoberta da minha vida).

 Estou apaixonada! (Conforme toco com a minha mão na dele, e olho de novo dentro do seu olhar, é que eu finalmente compreendo. Agora tudo faz sentido, dentro do pouco sentido que isto tudo faz! A angústia, o aperto no peito, a alegria de há pouco, quando entrei e o vi…). Isto não me está a acontecer! Comigo não, violão! É que nem pensar nisso, é bom. Nunca vou gostar demasiado de homem nenhum, já disse! Para além disso, sou casada. Que grande chatice!

 Começo a ficar seriamente preocupada. Isto vai passar, isto vai passar, isto vai ter que passar… Daqui a um mês ou dois, já nem me lembro de que ele existe!

 Não podia estar mais enganada. Daqui a um mês ou dois, não como, não durmo e não saio da cama…

 

 Capitulo 39

 A Decisão

 Não posso estar casada com um homem e gostar de outro! Não é certo! Vou pedir o divórcio, até porque, tenho mais do que motivos. (Cerca de uma semana após eu ter tido alta do hospital, ao mesmo tempo que me levava a comida à cama e me apaparicava, ameaçava pôr o meu filho mais velho fora de casa, se ele não arranjasse emprego até ao final do mês).

 Está a ajudar-me a tomar uma decisão, o tormento a que me sujeita enquanto ainda estou em recuperação é desumano. Não faz sentido absolutamente nenhum. Encontro refúgio no meu novo sentimento e alimento a esperança de um dia ser livre.

 Faço 22 anos de casada. (O numero 22… Faço 22 anos de casada, conheci o meu médico num dia 22…). Estou mais ausente do que nunca, o que o meu marido atribui à minha recuperação difícil. Ele fez um escarcéu tão grande, quando estive internada, que agora as pessoas conhecidas, não param de lhe perguntar pela minha saúde.

 Por instantes, a ideia faz-me sorrir. Imagino… as pessoas, a perguntarem-lhe por mim, e ele a responder…“Ela? Já está boa! Está mais do que boa! Está tão boa, que até já acha que está boa demais para mim!”.

 Valha-me Nossa Senhora! Como é que desfaz um casamento, e o que é que ele vai dizer? Para me divorciar vou ter que dar cabo de tudo o que construímos, e sendo a minha irmã minha sócia na empresa, vai acabar por levar por tabela. Como é que se desatam tantos nós, e não fui eu que os ajudei a dar? A casa, linda, só o terraço tem 280m2, com hipoteca ao banco, não fui eu que a escolhi?  O carro, um Volvo S 80, (a menina dos meus olhos), também? Não escolhi eu todas as mobílias, cada peça decorativa, cada quadro? Não enrolei eu cada corda? Não apertei eu cada nó? Estou em casa, e já não me sinto em casa. Já não quero mais ficar aqui, a não ser pelos meus filhos… o que será deles sem mim…? 

Nada é mais inconcebível do que partir, mas mais inconcebível ainda é ficar…

Capitulo 40

 A Saída 

Faço as malas apenas 6 meses após a operação, (mas não é tão simples assim e eu vou acabar por descobrir).

 Tenho dúvidas acerca dos meus sentimentos por ti, digo eu, com cuidado, ao meu marido.(Claro está que não são dúvidas, mas certezas, certezas com muitos anos que eu sou agora obrigada a enfrentar, por força das circunstâncias).  A resposta dele é mesmo a sua cara…de pau! “Quando chegar à noite, não te quero ver em casa”

É tudo dele! Que arrogância.“Vai para casa da tua mãe pôr a cabeça em ordem” E saio, mas não para casa da minha mãe como ele imagina,alugo uma casa para poder ficar perto dos meus filhos e mudo-me para lá.

 É a sério, e ele está agora a começar a compreender que eu não estou a brincar, e que acabou de facilitar o desfecho ao mandar-me sair de casa. Fica em choque, não digo que não. Muda de estratégia, enche-me a casa de ramos de flores, e resolve tentar conquistar-me de novo. E agora já quer conversar…Descobriu que até sabe ser romântico. Logo agora, que eu já não quero nada disso, da parte dele. Porque é que as pessoas só querem o que não têm e não dão valor enquanto é tempo?

A minha mãe mal me fala, e quando fala apenas sabe dizer coisas como: “Para que é que tu queres ser feliz? Ninguém é feliz”,

 ou: “Ele é assim tão mau rapaz, é? ainda se te batesse…” Que cambada! Não vale a pena discutir este assunto. Estou entregue a mim mesma.  As minhas irmãs e os meus filhos estão do meu lado e só isso me importa.

 Os próximos meses são de tortura psicológica, chantagem emocional e ameaça velada…

resta dizer que saí de casa num dia 22…

 Capitulo 41

 Ama-me 

…e não me quer perder. Caramba! Se tenho um marido que me ama tanto, porque é que eu nunca dei por isso, hem? Desde mensagens românticas a ramos de flores e prendas, não me falta nada! Falta-me paz! A pressão familiar é tão grande, que começo a perder as forças. Estou sozinha numa casa vazia e a minha cabeça explode com tanta confusão. Eu até acredito que o choque dele é genuíno, só pode ser, nunca esperou, nunca pensou, chega a dizer:“ Nem nos meus piores pensamentos, alguma vez imaginei, que tu algum dia podias terminar com o nosso casamento”.

 Ah!… Pois é! Não existe maior erro, que alguém possa cometer, do que pensar, que a pessoa com quem está nunca há-de ir a lado nenhum. É seguramente o primeiro passo para perdê-la! Não quero magoá-lo mais do que o necessário, apesar de tudo. Perde cerca de 20 kg, entre alguns ataques de ansiedade que se confundem com princípio de ataque cardíaco. Acabo a conduzi-lo várias vezes ao hospital. São nervos…não se conforma e faz uma campanha impressionante para me ter de volta. Não joga limpo, nunca jogou!

 Diz que muda. O que tiver que fazer, faz! O que tiver que mudar, muda! Tudo por minha causa. As pessoas não mudam, muito menos ele. Contei-lhe. (Foi um erro, agora sei, mas na altura pareceu-me o mais correcto, aliás, sei que foi o mais honesto que eu podia fazer, mesmo que ele não merecesse a minha honestidade. No fim das contas, não o fiz por ele, fi-lo por mim…).

 Disse-lhe: “ Não há nada que tu possas fazer ou dizer para mudar a situação, gosto de outro homem”. Não é fácil falar, confessar um crime que não cometi, sei que vou ser condenada na mesma, mas tem que ser, e já está! Agora ele vai perceber e facilitar… (Então não vai! Aperta-me o cerco, e balança entre a continuação da conquista e a ameaça de destruir a carreira ao homem de quem eu gosto… Burra!).

 Volto para casa, vencida pelo cansaço. “Para variar”, hoje também é dia 22…

 Capitulo 42

 Dói-me tudo! 

Dói-me o corpo. Dói-me a alma. Doem-me as dores que não tenho. Preciso de um médico, já! Preciso do meu médico…Preciso dele… Preciso de voltar a vê-lo! Quem sabe, tudo não passe de uma fantasia da minha cabeça.  É isso mesmo! Vou vê-lo, e vou descobrir que isto não é nada.

 Pior a emenda de que o soneto. Invento um chorrilho de desculpas esfarrapadas, para ele me atender. Meto os pés pelas mãos, coro até à raiz dos cabelos, e não digo uma frase completa que faça sentido. (Acabo de descobrir que falo um novo e estranho dialecto, presumivelmente alienígena, que eu própria tenho dificuldade em decifrar. Ahn…Uh…Han…Pareço uma atrasada mental, é inacreditável! Ele é a minha fraqueza. Quando estou perto dele, perco a força, como o Super homem perto de kryptonite!).

 Mau, Maria! Ele percebeu, mas é um “pikeno” educado, e faz que não entende.

 As pessoas passam por mim, deitada num qualquer banco de jardim do hospital, e pensam… “Coitadinha, deve-lhe ter morrido alguém chegado”. E morreu mesmo! Morreu a minha esperança. Morreu o meu coração. Morri eu, de vergonha… Choro convulsivamente até não ter mais nada para chorar.

 Volto para casa. Isto vai ter que passar, ou eu não me chamo Alda Maria! Chamo? Alda Maria?  Mesmo? Ai! Ai! Ai! Ai! Aaaaaaiii! Entretenho-me como posso, disfarço o melhor que consigo, (e eu disfarço mesmo muito mal, não sei mentir, omitir às vezes dou um jeito, para simplificar as coisas, mas mentir…nnaah!). Inscrevo-me num curso de aperfeiçoamento de desenho e retrato, que me faz muito bem.

 Que lindo serviço! Nada como um coração partido, como fonte de inspiração,

 e a bela da Alda Maria volta a escrever. Desta vez é poesia que fala de amor…

 

 Capitulo 43

 As Datas 

Fiz 44 anos no dia em que voltei para casa, para dar mais uma “chance ao casamento”,(como o meu marido me pediu), o David fez 21 anos e o Rafael tem 15, estão os dois “naquela idade”.

 As Datas mexem comigo, não sei porquê. Sinto-me de novo encurralada, não sei porque voltei. Como posso ter cedido à pressão, se já não é nada disto que eu quero… O meu marido está ciumento, coisa que antes nunca foi. Vigia-me de perto, e perco a liberdade que costumava ter. Diz-me coisas como: “ Já não te chego”, ou,“Já não és de confiança”. É mau demais para ser verdade.

 Meu Deus! Se lhe dei a maior prova de confiança! No dia em que descobri que já não reunia condições para continuar a ser uma mulher casada, pedi o divórcio…Se isso não é “ser de confiança”, então não sei o que é! Ninguém gosta da verdade. As pessoas preferem a mentira, mas eu não sou assim. Hás-de levar com a verdade até que me deixes partir! É assim que queres, é assim vais ter!

 “A minha vidinha “continua, (embora eu, maior parte das vezes não me encontre lá). O meu pensamento protege-me, levando-me para fora da realidade. Tenho a minha própria realidade alternativa, e sempre terei uma forma de planar sobre a densidade, sobre a maldade humana, sobre o que não quero para mim. Por isso, entrego-me às Artes. Passo horas a escrever poesia e a desenhar.

 Não é fácil desenhar o rosto de alguém que não se vê há muito tempo…

 Capitulo 44

 As Asas

As minhas asas crescem, e aqui já não há espaço para as esticar. Preparo aos poucos o voo, ainda com medo, de poder ser perseguida. Peço o divórcio mais algumas vezes, e chego a estar um ano separada e a morar na mesma casa. É um autêntico inferno. Os bens são o grande problema, e sempre que falo em divórcio o meu marido diz  que só assina quando estiver tudo vendido e ele recebido a sua parte. Qual parte? Se as empresas estão em falência técnica há anos, e o que existe são largas centenas de milhares de contos em dívidas. Ah!, mas disso, ele parece não querer a sua parte.

 Faz agora 3 anos que fui operada, estamos de novo em Agosto e acabei de apanhar outro valente susto de saúde. Não passou disso mesmo. Fui mal diagnosticada, e durante 20 dias, precisamente nas minhas férias, (de novo) ando em exames, até chegarem à conclusão de que não é absolutamente nada. Como de costume, nem uma palavra de conforto da parte dele, e julgava eu ter um cancro, foi isso que pensei, seriamente. Estou perplexa, aliviada, mas perplexa. Mas que raio é que isto quer dizer!

São demasiadas coincidências para ser apenas uma coincidência…

 Deus resolveu “brincar” comigo, e ver de que sou feita, do que sou capaz. Meteu-me os desafios à frente e disse: Queres? Então luta! Ou então acomoda-te para sempre e pára de pedir, de desejar… (Não peças…porque Deus pode fazer-te a vontade…)

 O Universo continua a abanar a minha existência, como se fosse uma pequena folha à qual eu estou pateticamente agarrada, e só agora começo a compreender o que Ele realmente pretende de mim.

 Alda…Parte! Vai, Alda vai… e não olhes para trás!

 Estamos no final de Agosto. Chego a casa e digo: “ Arranjei um emprego, começo amanhã”…

 Capitulo 45

 A Aventura

Benfica. S. Domingos de Benfica, mais precisamente, e eu aqui, a fazer não sei o quê. Não é bem um emprego, porque não é remunerado, ganha-se à comissão. Bem, que difícil é que pode ser, o ramo imobiliário? É canja de galinha! Uma semana com os olhos inchados de chorar, mas para trás é que eu não volto, é que nem pensar nisso é bom, ainda para mais, saí de lá “com uma mão atrás e outra à frente”. Dei a minha quota à minha irmã e ela só me perguntou: É mesmo isso que tu queres fazer? e eu respondi: É! Assim, não há mais nada para dividir!

 Meses a penar. Valem-me as aulas de pintura que iniciei há pouco tempo, para me distrair e dar animo, vou em breve fazer uma exposição, (estou convencida disso), e ainda nem consegui acabar o meu primeiro quadro.

 Tudo porque, quando entrei em 2006, os meus desejos foram: Conseguir publicar alguns dos meus poemas e fazer a minha primeira exposição de pintura, que acabou por ser em 2007. Os poemas, publiquei numa colectânea de novos autores, e como ainda no final de 2006 me foi pedido para juntar um pequeno texto acerca de mim, para publicar juntamente, acrescento, (ao meu melhor estilo), que sempre quis ser pintora, (o que é verdade), e que em breve vou fazer a minha primeira exposição (o que é verdade também, mas se tivermos em conta que nessa altura ainda nem tela nem pincéis nem tintas tinha comprado…)

 Porque faço isso comigo e me empurro para a frente desta forma?  Dá-me vontade de rir. Assusta-me e diverte-me ao mesmo tempo. Agora tem que ser, não há como fugir! Está escrito e publicado, não tenho saída. Chega de adiar! (Desde pequena que digo que quero ser pintora quando crescer. Foi ficando sempre  para segundo plano, a fábrica, os negócios, o marido, os filhos). Chegou a minha vez.Vou fazer tudo o que me der na “Real gana”.

 Vou às compras e trago telas, pincéis e tintas. É agora ou nunca…

 

Capitulo 46

 O Quadro a Óleo

 Já me tinha esquecido o que é pintar a óleo. Tive uma experiência há muitos anos que me deixou completamente traumatizada, foi isso. Agora já me lembro! Acabei de me lembrar, porque é que nunca mais voltei a tentar pintar.

 Tinha 14 anos quando pintei numa madeira, com os restos de tinta de pintar o quarto, uma paisagem com o sol a aparecer por entre as árvores, em tons de verde e laranja, para combinar com a decoração do quarto da casa nova, (a minha mãe recebeu uma indemnização pelo falecimento do meu pai e comprou um andar).

 O meu tio, irmão do meu falecido pai, foi visitar-nos e viu o quadro pendurado.

Foste tu que pintaste?

Fui.

Vais pintar um quadro igual para o tio pendurar no hall de entrada lá de casa.

Mas ó tio, eu não sei pintar, nunca pintei.

Claro que sabes, vou comprar-te uma tela a sério, um pincel e tintas de óleo.

Mas, ó tio…

Quero igual!

Tá bem.

 A tinta de óleo não espalha sem se adicionar um Medium. (Um liquido oleoso que ajuda a tinta a diluir). Se eu não sabia disso agora, que tinha acabado de comprar os materiais, como é que eu poderia saber isso aos 14 anos? Pintei a tela espalhando a tinta de óleo com os dedos. (Penso que deve ter sucedido o mesmo a Van Gogh, apenas ele deveria ser mais teimoso do que eu, e não desistiu. Já eu, jurei para nunca mais ver uma tela à minha frente, até agora!).

 Resta dizer que o meu tio adorou a tela, e esteve pendurada no hall de entrada de casa dele até ele morrer. Morreu um ano antes de eu fazer a minha primeira exposição, com grande pena minha.

 Passaram-se mais de trinta anos e eu estou de novo com o mesmo problema…Help!

 Capitulo 47

 As Aulas de Pintura

 Chego à escola de pintura, para me inscrever. (Com um ar apressado). Preciso de umas aulas, (digo),só para ter umas noções básicas de pintura. Preciso aprender a pintar, porque tenho uma exposição para fazer…

 Heh! heh! heh! A cara da professora a olhar para mim, (como se eu estivesse a dizer uma barbaridade ou a cometer um sacrilégio, e pelos vistos, para ela, estava). Oh! Alda, (diz), sou pintora e professora há muitos anos e nunca fiz uma exposição. Mais! Tenho amigos que são pintores, há anos, e nunca expuseram…

 Agora tenho a certeza! Sou mesmo de um planeta diferente, quase desabitado, presumo, já que eu não conheço ninguém que seja de lá. Serei de Krypton? Não funciono assim, e eu funciono!

 Não fizeram,(respondo), porque não quiseram, e eu vou fazer, porque eu quero! Não se fala mais nisso, e pronto!

 Ainda me rio quando me lembro dessa história, quanta ousadia…

 O que me dá também, muita vontade de rir, é lembrar-me que, no dia da inauguração da minha primeira exposição, no Hospital de Santa Maria, onde inaugurei o espaço que passou a ser galeria, na entrada principal, estar, entre outras personalidades do conselho de administração do hospital, a enfermeira chefe,que, depois de rasgados elogios ao meu trabalho, me perguntou há quanto tempo é que eu pintava. Huum!… Está quase a fazer um ano, respondi.

 Ainda bem, que não me perguntou, quanto tempo eu tinha demorado a pintar, tudo o que ali

se encontrava exposto, porque eu iria ter que responder… Bem, quase 15 dias…

 

 Capitulo 48

 A Exposição

Que Loucura! Acabo de ser convidada para inaugurar o espaço da entrada principal do Hospital de Santa Maria, pelo Director de Comunicação, e não tenho um quadro que seja. Acabo de ser roubada, nem há 10 dias. Todos os meus quadros a óleo que eu demorei quase um ano a pintar, desapareceram, durante uma noite de  assalto, ao andar modelo da empresa que pertence aos proprietários da  RE /MAX, onde eu agora trabalho.

 Disse que sim. Devo ser doida! Mas vou fazer a minha primeira exposição e só isso me importa. Logo em Santa Maria…Tenho quase duas semanas para tirar este coelho da cartola!

 Valha-me Deus! Meto-me em cada uma… porque é que eu fui dizer que sim…? (Como se fosse possível eu dizer que não…) Bom, não posso pintar a óleo; mais tempo do que isso levam os quadros a secar! Para além disso, não tenho um cêntimo que seja, e as telas e tintas são autênticas fortunas. Dos meus quadro desaparecidos, alguns até emoldurados estavam… Pintar tudo de novo é uma completa loucura! E expô-los? Como? Pendurados onde? Em cima de quê? O hall é enorme, majestoso, amplo e eu estou feita ao bife! (As primeiras horas são passadas a digerir a ideia. Como é habitual em mim, posso não ter ainda uma pequena ideia do que vou fazer, mas sei que vou conseguir. A dúvida reside em “como”, e “com que dinheiro”).

 Falo com o dono da imobiliária, tenho uma exposição para fazer e os meus quadros estavam todos em propriedade sua, e ele sem seguro. Propõe-se compensar-me, pagando-me as telas e as tintas necessárias para realizar a exposição, e já agora a madeira para os móveis que estou a desenhar e que o meu cunhado se “voluntariou” para construir.

 Passou a primeira semana. Já desenhei os móveis, e estou tranquila quanto ao resultado. Essa parte já está. Agora é só ir buscar as telas que encomendei e… tenho uma semana para pintar … Socorro!

 A exposição no Hospital foi um êxito enorme, foi mais do que eu pedi a Deus.

O livro de honra está repleto de comentários maravilhosos e quando me sinto em baixo

 gosto de o reler para me lembrar que os milagres acontecem…

 Capitulo 49

 O Guia Espiritual

Tenho 49 anos e sei que nada acontece por acaso, nada nos é dado nem nos é tirado. Tudo nos é cedido temporariamente, até a vida. Enquanto não percebermos isso não estamos em condições de crescer. Todos trazemos um caminho traçado e lições para aprender, quanto mais depressa as aprendermos, mais depressa passaremos para o nível seguinte. Todos temos connosco um anjo da guarda, ou guia espiritual, que nos protege desde o dia em que nascemos. Alguns de nós (a maior parte não) tem a capacidade de sentir a sua presença, de seguir os seus concelhos ou até de conversar com ele. Outros apenas seguem a sua intuição, (que pode ser considerado a mesma coisa).

 O Universo interage com os seres humanos. Eu acredito que o meu caminho estava escrito, e embora eu tenha a liberdade e o livre arbítrio para escolher, sei que as situações que me são apresentadas fui eu que as imaginei e com a força do meu pensamento as trouxe para a minha realidade.

 Aprendi muito, em todos os lugares por onde passei, e aprendi sobretudo, que a vida tem planos para nós e que maior parte das vezes são maravilhosos e surpreendentes. É só, nós aprendermos a relaxar, para podermos apreciar “a viagem”.

Estive um ano na RE/MAX como consultora imobiliária, e através desse trabalho conheci pessoas que me desafiaram para trabalhar como Consultora Financeira. Entretanto voltei a pedir o divórcio de modo definitivo. Saí de casa e estou a morar desde o inicio de 2008 em casa da minha mãe. Aprendi muito, ri, chorei, passei privações de várias ordens, cheguei a andar uma semana inteira com 1 euro na carteira, e descobri que não precisava de mais. Comprei um “chanato velho” por mil euros, enquanto o meu “futuro ex-marido” se passeia no meu Volvo e mora na minha casa.

 Passou mais um ano, e agora estou de volta para o lugar que sempre me pertenceu,e não digo, de onde nunca deveria ter saído,

porque era suposto passar pelo que passei, para poder viver o que vivi e aprender o que aprendi.

 Tudo isso, para poder estar agora aqui, exactamente onde me encontro…

 

 É linda a minha história,

e eu tenho muito orgulho de tudo o que vivi, 49 anos de idade, e 49 capítulos, que se continuam a escrever a eles mesmos. É uma história de amor, de sofrimento, de coragem e de valentia, e de algumas loucuras, (porque a coragem e a loucura muitas vezes se tocam e se confundem), de acreditar no imaginário e trazê-lo para a realidade, de fantasiar e “fazer acontecer”, porque é disso que se trata, é isso a que se chama viver, e quem ainda não tiver descoberto, que tudo nos é dado, basta acreditar, e que, quanto mais nos agarramos aos bens materiais, mais depressa os perdemos, e que para ter, há que abrir mão e deixar partir….tudo…

Tudo menos as recordações… as recordações são tantas…Lembro-me tão bem… 

O Rafael, pequenino, tão engraçado (parecido comigo, sempre a fantasiar), começar as frases a dizer: ”Quando eu era cão…”,ou quando me pedia para cozinhar “patas de galinha”, para que pudesse correr mais depressa. Mais depressa…ainda? Ou daquela vez, em que, desesperada, por não saber mais o que lhe havia de fazer, lhe disse:” Se te portas mal vais para o inferno”, ao qual ele respondeu a fingir um medo que não tinha: ” Pois é mãe! Vou para o inverno…para a neeeve!!! Só depois, a escangalhar-me a rir, me ocorreu, que, para além dele apenas ter 2 anos, não podia possivelmente saber o que era o “inferno”, essa terrível ameaça usada pela minha mãe quando eu era pequena: “Não assobies, Alda, que a Nossa Senhora fica triste e chora”, e eu, Maria rapaz, de andar a jogar à bola com os rapazes e a esfolar os joelhos, nunca percebi, porque é que a Nossa Senhora, se gosta de nós, não nos deixa fazer o que nos faz feliz. Tão bem comportada que eu era, e era mesmo, não estou a brincar, que durante o intervalo, lá no colégio das freiras, ia assistir pelas vidraças, as minhas colegas a terem as aulas de piano que eu sonhava ter, e nunca me atrevi sequer a pedir, por saber a resposta bem demais. O Rafael diz que quer ser cozinheiro, mas quando era pequeno dizia que queria ser, ou Pai Natal ou Super Mário. (O da Nintendo).

Eu era um anjo, comparada com o Rafael, a quem tenho que agradecer algumas vergonhas que passei, como daquela vez, quando ele tinha cerca de dez anos, e me telefonaram do colégio que ele frequentava: “ Tem que vir imediatamente à Escola, falar com a Sra. Directora”, o Rafael fez uma coisa terrível, venha já para cá” . Aí vou eu disparada, com o meu Honda Civic em excesso de velocidade, sujeita a matar-me pelo caminho, enquanto pela cabeça me passavam todos os piores cenários possíveis e imaginários. Mas o que será que ele fez de tão grave assim? Roubou alguma coisa? Isso seria grave. Bateu num colega que acabou hospitalizado? Isso seria muito grave mesmo! Engravidou uma colega de carteira??? Bolas!!! O puto tem 10 anos! O que é que ele pode ter feito assim de tão grave? Matou alguém? Chego ao gabinete e à porta está o Rafael, lavado em lágrimas: “ Foi sem querer”, soluça. Entro para o gabinete da Directora e fecho a porta atrás de mim para ele não ouvir a conversa (graças a Deus). E começa a Sra. Directora a contar… que o Rafael e um colega, resolveram no intervalo ir para o jardim (o colégio tem um jardim enorme que contorna toda a escola) e que os dois resolveram brincar com a mangueira…e que um abriu a torneira, e o outro enfiou a ponta da mangueira pelo gradeamento, continua… (eu começo a ver onde vai chegar e começo a mudar de expressão). E mais!… Apontavam para os carros que passavam na estrada para lhes “dar banho” (já estou com um ar de riso que tento a todo o custo disfarçar), e continua… e como o terreno tem uma inclinação, há um passeio que passa mesmo por baixo do local que eles escolheram para a brincadeira, (diz com ar de indignação) e vem uma mãe de um aluno a passar, para vir ter uma reunião com ela, (a Sra.Directora) e… (Tenho ataques de riso incontroláveis desde criança, alguns, nos momentos mais inoportunos, e estou a ficar preocupada)…leva um banho da cabeça até aos pés! (Pronto! Que não me aguento mais! Começo a imaginar a ”mãezinha”, toda “aperaltadinha” para a reunião, a levar um banho inesperado dos pés à cabeça e a ficar toda encharcadinha até às cuecas. Ai! Meu Deus! Tirem-me daqui!). Levanto-me de um salto e digo com o ar mais sério de que sou capaz na altura: Vou já tratar disso, e saio disparada.

  (Sempre achei que ela deve ter ficado a pensar…”Com uma mãe assim…”).

Já o David era mais sossegado. Fazia mais “pela calada”, passava muitas horas entretido a desenhar por isso nunca fez tantos disparates como o irmão.  Andou no Colégio O Planalto, mas nunca foi um aluno de “excelentes”, apesar de ser sobre-dotado. Sempre foi como eu. (nisso os meus filhos saem a mim, gosto de questionar: mas porque é que há-de ser assim…quem foi que disse, e porquê…) Ganhou um segundo lugar a nível nacional com uma redacção, que, depois de corrigidos o excesso de erros ortográficos, ficou espectacular. Foi também escolhido um desenho dele, para serem impressos postais, que posteriormente foram enviados a todos os pais pelo Natal. É uma tradição do Colégio Planalto, que ele frequentou até aos 12 anos de idade. Teve algumas engraçadas também quando era pequeno, como aquela que eu gosto de contar, que ele fez com cerca de ano e meio, e mostra como ele tinha dificuldade em dividir… estava a comer uma banana, que ele adorava, e eu pedi-lhe um bocadinho,“ a mamã está com fome” dizia eu para o convencer. Quanto mais eu pedia, mais ele negava e quanto mais ele negava, mais eu tentava convence-lo que se deve dividir. Vencido pelo cansaço diz, ao fim de não sei quanto tempo…. Está bem! Mas chupa só! … É o David, no seu melhor, e também sai a mim, que quando apanhava um chocolate também não dava nada a ninguém), aliás acho sempre que os meus filhos saem apenas a mim, em tudo. Fui eu que os quis, fui eu que os tive, fui eu que os amei, que os eduquei. Nas escolas por onde passaram, os professores e colegas pensavam que eles realmente só tinham mãe, nunca se ouvia aqueles meninos falarem acerca do pai, porque seria? O David passou a maior parte da sua vida a querer ser músico, o tormento das bandas de garagem), mas agora está a criar uma empresa de Web-Design. Aprendeu a fazer sites, sozinho. Foi ele que concebeu o meu site artístico que ficou espectacular. Está neste momento a fazer o site e logótipo para o meu novo negócio, a loja “Quarto Crescente”. Estou há cerca de um ano e meio fora de casa, e a começar de novo a trabalhar por conta própria, já sou de novo empresária! Tenho saudades de morar com os meus filhos, sinto a falta deles e sei que eles também sentem minha. Penso que até ao final do ano, (dependendo de como evoluam os negócios), vou conseguir alugar uma casa, para a família estar toda de novo reunida.

 Nós os três vamos ser sempre a família completa!

E eu…

Eu aqui. Eu aqui sozinha de 

novo, de novo em casa da minha mãe,

 como quando eu era pequena, e a minha mãe:

 Ó filha, tu tens que te alimentar…e eu agora sou de

 novo pequenina, e os meus filhos: Ó mãe, tu só comes

 porcarias, chocolates não são refeição…Queres morrer?

…e eu agora sou filha deles, e estou aqui sozinha há tanto tempo,

e não se deixa uma criança sozinha, a chorar, dentro destas

quatro paredes, e o sono que não chega, e eu aqui, sem nada,

à espera de uma vontade de dormir que não aparece, quando

o que chega é a vontade de chorar, e o meu pai, a despedir-se

de mim pela ultima vez e eu sem saber, e eu a comer uma

carcaça e a olhar para as meninas a tocarem piano,

e eu também queria aprender a tocar

 piano, e queria aprender a

 jogar ténis, e

 queria

aprender 

a andar de patins, e queria aprender a andar a cavalo, e queria ter um cavalo, e

 queria ter um piano, e quero! Quero ser uma princesa, e quero casar com um

 príncipe encantado que tenha

 olhos azuis, e quero ter

mil filhos quando

crescer,

e quero ser

feliz, e vou ser! mas

agora, agora estou aqui, estou

aqui na minha cama, a embalar-me,

e tenho os joelhos a tocarem no queixo e as

mãos a segurarem as pernas, em posição fetal, e o

 relógio, o relógio tem muitas horas, e eu vejo todas as horas que

 o relógio tem, e agora já é uma, e agora já são duas, e agora já são três…

e eu tenho a almofada encharcada, de tanto chorar, e eu estou aqui sozinha,

estou

aqui

sozinha

a chorar

 

… estou aqui sozinha… a chorar…acabadinha de nascer…

Alda Maria Maltez

 

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