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Paradoxo…

No insondável mistério que é amar-te, pecado confesso e contrição, perpétuo arrependimento de voltar sempre ao ponto de partida…

Enigma…

Nas palavras indizíveis, contidas em olhares soslaios que deixam escapar verdades inconvenientes, paixão e febre, doença e cura em simultâneo…

Quebra cabeça…

No corpo esculpido, uma e outra vez, pelas tuas mãos, artesão em busca da obra prima, Vénus quebrada, seios e ventre e mármore, escopo a cinzelar desejos e dilemas…

Labirinto…

Na língua e mãos e carne, a conquistar terra de ninguém, campo de batalha onde me perco e te encontras, e onde hasteias a tua bandeira, de derrota em derrota, sem que sejas vencido…

Fuga…

Na inconsciência que é querer-te, medos e segredos, perigosamente ciente dos nadas que colecciono e desconstroem a nossa história que não há…

Vertigem…

Na insanidade das minhas mãos a procurarem-te no meu corpo, no silêncio das noites de insónia, lua cheia a invocar feitiços, madrugada dentro…

Medo…

No indizível ridículo que é contar no relógio todas as horas, quando carregas nas tuas mãos a minha solidão, asas e pele, onde despejas as etéreas promessas de ser mais…

Tormenta

Barco à deriva, perdido, a encontrar refugio na ilha da tua pele onde naufrago, entrega e cansaço, maresia e sal em tempestades de sentidos, dor e ciúme a morder a tua boca de saudade…

Água

Nas fontes dos meus olhos com que escrevo poemas, que não lês, nas minhas faces, sulcos, versos que gritam e calam e guardam…

…e esperam…

…por habitares o meu corpo sem abrigo…

Alda Maria Maltez

 

52970_488229687883468_873839943_o Maria quis ir, um dia, ao outro lado do mundo,

Quis sair do seu jardim, conhecer o mundo, a fundo…

Maria ficou espantada com as coisas que lá viu,

Viu lá casas de papel e meninos cheios de frio.

Mas Maria não sabia, mas Maria não sonhava,

Que haviam lugares no mundo onde a comida escasseava…

Maria ficou parada, não sabia o que pensar.

Tinha pensado que o mundo era a casa onde vivia,

Era o pai e era a mãe,

Era o irmão pequenino,

Era o tio e era a tia,

Que viviam a cantar, do lado onde ela morava…

Se Maria não sabia, também ninguém lhe contava…

Maria olhou p’ros meninos, falavam e riam dela,

Gozavam com o seu vestido, chamavam-lhe “farapela”…

Maria então perguntou: “Porque se riem de mim?”

“Olhem, eu não tenho a culpa, se calhar nasci assim!”

“Já de vestido com folhos, e lacinhos cor-de-rosa…”

Mas os meninos só riam, e chamavam-lhe vaidosa.

Maria correu p’ra casa, passou a tarde a chorar…

Maria contou ao pai, o que um dia descobriu,

O pai deu-lhe um beijo grande, olhou p’ra ela e sorriu.

“Maria…tu és pequena, anda, olha para mim…”

“Compreendo que tens pena, mas o mundo é mesmo assim.”

Mas, se o mundo é mesmo assim, o que é que vamos fazer?

“Não penses mais nos miúdos, que tens mais em que pensar…”

“Olha, acaba de comer, e vai p’ro quarto estudar!”

Alda Maria Maltez

Lápis de cor em papel de aguarela por Alda Maria Maltez1545622_938070719566027_2485065941698575974_n

Antes…

Eu bebia sôfrega a luz dos teus olhos,

Eles brilhavam pra mim como estrelas na noite

…e só eu é que via…

Antes…

As tuas palavras, ditas banais, eram poemas,

Cheios de flores, e cor e musica

…e só eu é que ouvia…

Antes…

Eu embarcava no teu sorriso,

E navegava no mar das minhas fantasias

…e só eu é que sabia…

Antes…

Eu falava com os anjos

E eles mostravam-me caminhos de luz

Até ao teu palácio

…e só eu é que sabia…

Antes…

Antes as minhas mãos procuravam-te no meu corpo

No silêncio das noites de insonia,

E as minhas lágrimas escreviam o teu nome no meu rosto,

E eu bebia a dor salgada de te querer sozinha.

…mas isso era antes…

Porque antes eu amei um sonho, uma fantasia,

…e já toda a gente sabia…

Mas agora…

Agora as fontes dos meus olhos secaram,

E transformaram-se em tinta e em palavras,

E eu pintei telas com as cores da minha alma,

E enchi folhas com palavras que agora já não me falam,

E tu estás em cada sílaba, em cada pincelada,

E eu já não te conheço.

E os teus olhos já não têm o brilho que eu imaginava

…porque só eu é que via…

Porque agora…

Agora eu enchi a minha vida com os sorrisos perdidos,

E fiz da minha dor o meu navio

E naveguei os temporais que me assolaram

E saí ilesa.

Apenas estou cansada…exausta

Porque eu passei pela tempestade,

Não foi ela que passou por mim…

E eu saí mais forte.

E hasteei as velas da minha coragem,

E rumei a novas paragens.

E ficaram para traz as palavras inocentes,

Com que compunha os poemas,

Que a menina dentro de mim inventava para te oferecer.

Porque o que eu sentia tinha atravessado o tempo…

Outros tempos…

Porque em outras vidas este amor foi vivido a dois,

E eu não estava sozinha.

Mas tu perdeste as memórias,

E viajaste no tempo sem lembranças.

…mas isso era antes…

Porque antes…

Antes eu passeava descalça em roseirais brancos

Abrindo caminhos de sangue

…e só eu é que sentia…

Alda Maria Maltez 2005

Fotografia de Alda Maria MaltezFotos Nikon 903

Paradoxo…

No insondável mistério que é amar-te, pecado confesso e contrição, perpétuo arrependimento de voltar sempre ao ponto de partida…

Enigma…

Nas palavras indizíveis, contidas em olhares soslaios que deixam escapar verdades inconvenientes, paixão e febre, doença e cura em simultâneo…

Quebra cabeça…

No meu corpo esculpido, uma e outra vez, pelas tuas mãos, artesão em busca da obra prima, Vénus quebrada, seios e ventre e mármore, escopo a cinzelar desejos e dilemas…

Labirinto…

Na tua língua e mãos e carne, a conquistar terra de ninguém, campo de batalha onde me perco e te encontras, e onde hasteias a tua bandeira, de derrota em derrota, sem que sejas vencido…

Fuga…

Na inconsciência que é querer-te, medos e segredos, perigosamente ciente dos nadas que coleciono e desconstroem a nossa história que não há…

Vertigem…

Na insanidade das minhas mãos a procurarem-te no meu corpo, no silêncio das noites de insonia, lua cheia a invocar feitiços madrugada dentro…

Medo…

No indizível ridículo que é contar nos relógios todas as horas, quando carregas nas tuas mãos a minha solidão, asas e pele, onde despejas as etéreas promessas de não ser mais…

Tormenta…

Barco à deriva, perdido, a encontrar refugio na ilha da tua pele onde naufrago, entrega e cansaço, maresia e sal em tempestades de sentidos, dor e ciúme a morder a tua boca de saudade…

Água…

Nas fontes dos meus olhos, com que escrevo poemas, que não lês, nas minhas faces em sulcos, versos que gritam e calam e guardam…

…e esperam…

…por habitares o meu corpo sem abrigo…

Alda Maria Maltez

Lápis de grafite em papel de aguarela

20150217_133338

Apenas eu a desenhar…

Sobre uma folha branca de papel,

Sephia, Aguarela ou pastel,

Em linhas que se esfumam, esbatidas,

Nascem traços, revelam-se proibidas.

Em memória outrora reprimida,

Formam-se, emergem, ganham vida…

Até nos degradeés que se apagam,

Lábios, que em pinceladas se afagam,

Olhares, que nos devolvem o olhar…

Assim… apenas eu…a desenhar…

 Alda Maria

If you never wondered the beach, breathed the air, felt the sun, heard the seagulls cry in a middle week day of january…then you don´t know was freedom is all about…20150127_142929 (1)

CAM00240 - Cópia
Assim…um olhar sobre 2014…

Sem tristeza nem saudade…

Apenas alguma nostalgia por tudo o que é deixado para trás nesse ano que se despede… no que se é obrigado a largar, a despir, a abrir mão… coisas, pessoas, projectos, ideias, verdades absolutas…

Abrindo e estendendo as asas para outros voos noutros planos que se avizinham… para outras realidades, outras possibilidades de ser… outras dimensões de nós mesmos …

Sem medos, sem limites nem limitações… Apenas confiando que o Universo é infinitamente sábio e sabe exactamente o que é melhor para cada um de nós a cada momento…

E, quando pensamos que já nada nos pode surpreender… eis que a vida nos oferece, de novo, a oportunidade de mudança… a experiência transcendental e sublime da transformação, da interiorização e ao mesmo tempo da auto-superação…

O exercício da humildade, do amor incondicional, do desapego…

Perfeito, na sua perfeita imperfeição…

Ciclos que terminam para que outros se possam iniciar … O rico, de novo pobre para poder aprender a gratidão… O arrogante, de novo humilde para trabalhar a tolerância e a compaixão… O mestre, de novo aprendiz para poder trabalhar o amor incondicional, a sabedoria e a riqueza interior…

Crescer em consciência e expandir em verdade…

(Re)aprendendo…

Com tanta esperança e alegria a dar as Boas Vindas a 2015…

Alda Maria Maltez

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Mãe, vais torcer para eu ir, não vais?

988

“ Mãe, fui dispensado do emprego e só fico até ao fim do mês…”

…(Silêncio)…  e agora meu filho o que vais fazer?

“ Estou à procura de outro trabalho”.

…Deixa lá, pelo menos assim aproveitas melhor o resto do tempo que ela estiver por cá… (Aquela a que eu sem querer me refiro como tua noiva, em vez de namorada, desde que a conheceste, vá-se lá saber porquê…)

“Preciso de falar contigo porque já tenho outro emprego em vistas, já fiz até a entrevista por skype e tudo”.

…Ainda bem, a fazer o quê e onde?

 “A fazer o mesmo mas em Jacarta…”

…(Silêncio)…

“ Mãe, vais torcer para eu ir, não vais?”.

…(Silêncio)…

… Claro que vou torcer por ti, quero o melhor para ti e quero que sejas feliz onde for…

“Mãe, eu sei que queres o melhor para mim, mas vais torcer para eu ir, não vais?”

“Por favor diz-me que vais torcer para eu ir”. Sabes o que quero dizer, não sabes?

…Sei…Vou sim, não tenhas receio …

(sabes, a minha vontade de tu ficares não é mais forte do que a tua de partires, mas eu não mando no meu coração. Prometo que vou fazer um esforço para sonhar o teu sonho e fazer minha a tua vontade e te ajudar a partir…).

…mas como é que se ajuda um filho a partir?…

Há muito tempo que sei que vais partir, ainda antes de tu saberes, muito antes… como é que se sabe e não se pode fazer nada, apenas deixar a vida correr, apenas deixar o tempo passar e deixar as suas marcas, fazer as suas escolhas…

Por esta ordem de ideias sei que vais fazer de mim avó e se calhar falta menos do que pensas, e que vou ter um neto meio indonésio, meio chinês, meio português no outro lado do mundo…

Já te tinha dito que me chamavam chinesa quando eu era pequena? É porque quando me rio fico sem olhos… mas as pestanas quase perdi de tanto chorar…

“Mãe, vais torcer para eu ir, não vais?”

…Vou…

Quando se ama deixa-se partir, não é? Já deixei  partir muitas coisas por amor, e muitas por amor à minha liberdade e sanidade mental… e já dei asas e já voei e já me espatifei toda no meio do chão e já fui feliz e outras vezes não e já amei e fui amada e já me parti a chorar de tanto rir e já me parti a rir de tanto chorar…

…mas como é que se ajuda um filho a partir?…

“Mãe, vais torcer para eu ir, não vais?”

Os filhos não nos pertencem, foste todo meu durante o breve instante que habitaste o meu ser, até ao dia em que chegaste no meu aniversário…

Já te tinha dito que foste a melhor prenda de anos de sempre, não tinha?…

…depois entreguei-te ao mundo, mas segurei-te até que não pude segurar mais … mas isso não é o mundo…é ou outro lado do mundo…

E quando eras pequenino… ai se o meu filho cai, se ele se magoa, se fica doente e precisa de mim, quem o vai amar como eu…

Já te tinha dito que para mim ainda és pequenino?…

Contigo comecei a aprender o desapego porque te queria abraçar e beijar e nunca deixavas, depois foi por aí fora…isso foi apenas o começo…

Já te tinha dito que foste o meu primeiro grande amor? Depois veio o teu irmão…mas tu foste o primeiro… a primeira vez que eu descobri o que é amar fora do corpo…

Fico feliz por ti, sei que vais ser feliz e isso dá-me paz… sei que finalmente encontraste o amor ou pelo menos um amor e se fosse eu também seguia o amor até ao outro lado do mundo… até ao fim do mundo… porque quando se encontra o amor tem que se lutar por ele e é o que estás a fazer.

Talvez nunca te tenha dito por palavras mas sabes que foi o que eu te ensinei, não sabes?

Porque te mostrei que temos que lutar pelos nossos sonhos e temos que ir atrás daquilo em que acreditamos e que não podemos deixar que ninguém, mesmo ninguém, nos prenda ao chão! E são sempre aqueles que dizem que nos amam muito que mais nos querem prender, e cortar as asas…mas quem ama liberta, quem ama abre mão, quem ama apoia, quem ama ajuda a voar!

“Mãe, vais torcer para eu ir, não vais?”

Claro que sim meu filho porque te amo!

Mas meu filho…

Sim…

Promete voltar…

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Faz hoje 40 anos… Tinha 14 anos quando se deu o 25 de Abril. O metro e as escolas fecharam, haviam avisos na radio para que se permanecesse em casa. O medo inicial deu lugar ao entusiasmo… A partir desse dia e durante muito tempo tudo o que passava na radio era musica de intervenção. Uma gaivota voava, voava… Grândola Vila Morena…

Hoje esse dia parece-me distante e não apenas no tempo…  Recordo com nostalgia e saudade essa esperança que nascia em cada um de nós, esse nova liberdade de ser…

Algum tempo depois foi pedido aos alunos que escrevessem um poema acerca do que significava para cada um de nós a liberdade. Tinha apenas 14 anos e foi assim que escrevi:

A LIBERDADE

 

A liberdade para mim,

é uma rosa, um jasmim,

um cravo encarnado.

São cavalos no horizonte,

pastando no verde prado.

A liberdade é um sonho,

é uma coisa tão bela,

uma melodia sem fim…

São janelas abertas de par em par,

É ar!

A liberdade é amor,

uma caricia, uma flor,

É para mim, assim,

A liberdade.

Alda Maltez 1974

Se  hoje tivesse que escrever um poema, teria o título: “Onde estás Abril?